Por P.S. Allen
Olá, Sonhadores! Em meio a um mês recheado de leituras especiais no blog, Fome surge como uma experiência diferente dentro do gênero de terror. Para quem gosta de histórias com zumbis, mas acha que o tema já está saturado, este livro prova que ainda há espaço para inovação, especialmente quando se aposta em uma ambientação pouco explorada.
Um terror ambientado no sertão nordestino
A trama se passa em um pequeno vilarejo do sertão nordestino, onde a escassez e a fome fazem parte do cotidiano. A população vive em condições difíceis, marcada pela falta de recursos e pela esperança constante de dias melhores.
Esse cenário ganha um novo rumo quando o prefeito anuncia que a água finalmente chegará à região. A notícia traz entusiasmo e renova as expectativas dos moradores, que se preparam para celebrar durante a festa da padroeira, vista como um símbolo desse “milagre” aguardado por tanto tempo.
No entanto, tudo muda de forma inesperada. A festa é cancelada sem explicações claras, e o prefeito desaparece. O clima de frustração e abandono se intensifica, levando muitos moradores a deixarem o vilarejo em busca de melhores condições de vida.
“Aquilo não tinha fé, não tinha alegria. Aquilo era só fome. E fome de bonita não tem nada.”
O surgimento do horror
Os poucos que permanecem passam a viver uma rotina ainda mais lenta e desoladora. É nesse contexto que o terror começa a se manifestar. Sem explicações, o primeiro zumbi aparece, dando início a uma corrida pela sobrevivência.
A ameaça cresce rapidamente, e a fome dessas criaturas se torna o principal motor do horror. A partir desse momento, o livro assume um ritmo mais tenso, explorando o desespero dos personagens diante de uma situação extrema.
Mesmo sendo um tema já conhecido na cultura pop, o autor consegue criar uma atmosfera envolvente, utilizando o cenário e o contexto social como elementos fundamentais para construir a narrativa.
Escrita envolvente e retrato cultural
Márcio Benjamin demonstra grande habilidade ao retratar o sertão nordestino. Sua escrita se destaca pela forma como incorpora elementos culturais à narrativa, trazendo gírias, costumes e crenças que dão autenticidade aos personagens.
Esse cuidado na construção do ambiente aproxima o leitor da realidade retratada, tornando a história mais imersiva. Ao mesmo tempo, o autor mantém um equilíbrio entre o desenvolvimento dos personagens e a progressão do enredo, garantindo uma leitura dinâmica e envolvente.
A tensão é construída de forma eficiente, sempre acompanhada por uma curiosidade crescente sobre o desfecho dos acontecimentos.
Outros livros que podem te interessar:
- O Vale dos Mortos – Rodrigo de Oliveira
- Sangue de Lobo – Rosana Rios & Helena Gomes
- Terra Morta: Fuga – Tiago Toy
- Outsider – Stephen King
- O Exorcismo da Minha Melhor Amiga – Grady Hendrix
Um diferencial no gênero zumbi
Um dos pontos mais interessantes de Fome é a maneira como o livro aborda os próprios zumbis. Em vez de tratá-los apenas como ameaças, a narrativa também apresenta a perspectiva das criaturas infectadas, explorando seus pensamentos e sensações.
Esse recurso não é comum dentro do gênero e adiciona uma camada extra de profundidade à história. Ao permitir que o leitor tenha acesso a esse outro lado, o livro se distancia de abordagens mais tradicionais e oferece uma experiência diferente.
Além disso, a escolha do sertão como cenário contribui para essa originalidade, criando um contraste marcante entre o ambiente árido e o horror sobrenatural.
Um livro curto, mas marcante
Um dos poucos pontos que podem ser considerados negativos é a duração da obra. A história é relativamente curta, e os acontecimentos se desenrolam de forma rápida. Ainda assim, isso não compromete a profundidade da narrativa.
Pelo contrário, o ritmo ágil contribui para manter o interesse do leitor, tornando a leitura fluida e difícil de interromper. A sensação ao final é de que a história poderia continuar, deixando aquele gostinho de “quero mais”.
“Nenhum disse que ia ficar bem, como em filme de televisão, porque ali era vida de verdade, e em vida de verdade as coisas vez em quando ficam o pior que podem ficar, e não se tem como mudar isso.”
Influências e comparações
Pela forma como retrata o sertão e sua cultura, o livro dialoga com obras de autores como Jorge Amado e Ariano Suassuna, ainda que dentro de uma proposta completamente diferente.
Ao mesmo tempo, fãs de histórias de zumbis, como The Walking Dead ou da série literária O Vale dos Mortos, também encontrarão aqui uma leitura envolvente.
Essa combinação de referências cria uma experiência única, que mistura terror, crítica social e identidade cultural.
Vale a pena ler Fome?
Por fim, para quem busca uma história de zumbis diferente do convencional, Fome é uma excelente escolha. A ambientação no sertão nordestino, aliada à escrita envolvente e às escolhas narrativas ousadas, tornam o livro uma leitura marcante.
Mesmo sendo curto, o impacto é significativo, e a fluidez faz com que seja possível ler tudo de uma vez só. Para leitores que apreciam terror com identidade própria e um toque de inovação, esta é uma obra que merece atenção.
Avaliação
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Fome
Márcio Benjamin
ISBN: 978-85-665-0598-6
2016 – Jovens Escribas
192 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
É numa pequena cidade do interior do nordeste, com seus tipos e personagens tradicionais, como o Padre, o Delegado, o Prefeito, que essa festa sinistra dos mortos-vivos acontece.
Mantendo-se fiel à proposta de traduzir para um cenário sertanejo a pegada das histórias de terror (como fez eu seu primeiro livro, “Maldito Sertão”), Márcio constrói um apocalipse zumbi temperado pelo sol e pelas paisagens rochosas e empoeiradas de um Sertão urgente, lapeado de realidade, onde precisaram cortar todos os excessos, onde o sol onipresente e onisciente parece conhecer e consumir cada recanto daquele lugar e das pessoas que ali vivem, e acaba por assumir-se como o palco da maioria das cenas da história, como se neste interior não houvesse tempo para o anoitecer.
Com uma narrativa simples e direta, bastante teatral e cênica, o criador dessa história atravessa o horizonte do sertão, o grande tropo da literatura brasileira do século XX, com imagens rápidas de horas de flagelados aos farrapos se arrastando em busca de comida, contaminados de uma desconcertante pulsão que mesmo na morte os move em sua fome sem fim. Pois como o próprio autor coloca na boca de um de seus personagens: “pra que pressa, mãe, se as arribaçãs rasgam o céu como se soubessem que vamos todos morrer?”.