O Canto da Cigarra – Parte 2 – Tarde

Olá, Sonhadores! Bem-vindo a segunda parte do meu conto! Caso tenha caído aqui de paraquedas e não leu ainda a primeira parte clique aqui. Boa leitura!


Já era 14:00 horas quando Denise e os turistas retornaram à hospedaria. A Sra. Zenaide já soubera de tudo e caprichou no almoço para tentar animar seus clientes. Ela pagou a Leo e Denise pelos serviços e os dois saíram.

— Desculpe a demora, o delegado nos segurou lá o máximo que pôde, está com medo da história se espalhar e o evento ser um desastre – disse Denise.

— Eu tenho certeza que a essa hora o boato sobre cigarras assassinas já corre por metade da cidade – afirmou Leo com malícia.

— Foi o que eu disse a ele! – Respondeu ela levantando os braços.

— Afinal, qual é o plano? Quando vamos agir? – Ele questionou.

— Eu já comecei a agir, bebê. Lembra daquele cara que estava conosco e pegou uma das cigarras? O nome dele é Eduardo. Bem, acabei fazendo amizade com ele na delegacia, conversamos sobre o caso e ele se ofereceu para nos ajudar. Pedi para ele ir até a biblioteca verificar se encontra alguma coisa sobre cigarras. Especialmente algum caso semelhante a esse que tenha sido noticiado.

— O quê? Ele vai nos ajudar? – Perguntou Leo suspeito.

— Claro que sim, ele ficou bem animado, inclusive. E quem não ficaria, não é? Um padre assassinado por cigarras, isso daria uma bela história de terror. – disse ela com plena convicção e continuou – quanto a nós dois, vamos para a igreja. E calma, eu sei que você vai dizer que não podemos entrar lá e que deixaram guardas vigiando e blá, blá, blá. Eu já sei como podemos entrar, relaxa – ela sorriu.

Ao chegarem na catedral, observaram que havia apenas um guarda na entrada da frente e outro na entrada lateral.

— Eu ouvi dizer na delegacia que os guardas fazem pausas de dez minutos de hora em hora, revezando para que sempre fique um cuidando das entradas. Temos dez minutos para entrar, ficamos lá dentro investigando e saímos na próxima pausa do guarda – disse Denise.

— Mas as portas devem estar trancadas, não?

— Não a porta lateral. Parece que não encontraram as chaves. Olhe lá, o guarda se levantou, vamos dar a volta e entrar.

Enquanto o guarda da lateral se dirigia ao guarda da frente, Leo e Denise deram a volta pela igreja e entraram sorrateiramente sem grandes dificuldades.

A igreja estava em absoluto silêncio. Os dois se separaram em busca de pistas, cada um cuidando de examinar um lado. Passaram-se vinte minutos e os dois se encontraram no final da última fila de bancos de mãos vazias. Nenhum deles encontrou nada. Não havia vestígio algum deixado pelas cigarras.

— O que levaria as cigarras a fazerem isso? – Denise se questionava.

— Talvez tudo não passe de armação – disse Leo.

Percebendo que a amiga o olhava em silêncio esperando explicações, ele continuou:

— O que eu quero dizer é que alguém, humano, teria assassinado o padre, soltado todas essas cigarras dentro da igreja e prendendo uma delas dentro da boca do morto.

— E então – Denise concluiu – o crime seria abafado por um caso sobrenatural. É, seria um bom plano. Mas quem mataria o Padre Luís? Ele se dava bem com toda comunidade. Era simpático até conosco, apesar dele abertamente reprovar nosso estilo. Não sei Leo, por mais que sua teoria seja plausível, sinto que algo está errado. Aquelas cigarras, sabe, eu as vi, elas carregavam uma energia negativa.

Cansados, sentaram-se nos bancos de frente ao altar. Passaram-se uns minutos em silêncio enquanto eles observavam as duas grandes estátuas atrás do altar. No centro estava Jesus Cristo, crucificado. Ao seu lado, havia a estatua de Santo André, também crucificado, mas em uma cruz diferente, em formato de x. Quando crianças, Leo e Denise frequentavam a catequese nesta igreja e sabiam a história por trás do santo padroeiro. Ele se achava indigno de ser crucificado em uma cruz igual a de Jesus Cristo e pediu para que usassem outra. Esses e outros pensamentos passavam pelas cabeças deles quando Leo perguntou:

— Dê, você acha que isso foi… obra do diabo?

Houve um silêncio. Denise parecia refletir e Leo voltou a falar:

— Nós dois sabemos do que ele é capaz, já vimos coisas. E isso explicaria o motivo de um padre inocente ter sido atacado e não outra pessoa qualquer.

— Sua cabecinha está muito criativa hoje, não é? O delegado Robson devia lhe contratar – Denise ria nervosamente.

— Acho que não deveríamos estar nos envolvendo nisso, Dê. É divertido e tudo mais desvendar esse mistério, mas…

— Não se trata apenas de diversão, – Denise o interrompeu séria – eu estou disposta a provar para eles que podemos fazer parte da ordem. E não me olhe com essa cara, Leo. Você sabe como as coisas funcionam e esse mistério nos da uma oportunidade perfeita.

Eles continuaram em silêncio por alguns minutos. Denise encarava a estátua de Santo André, perdida em seus pensamentos. Foi então, em um movimento sutil, que o santo moveu os braços, apontando para a garota em sinal de misericórdia. Denise ficou paralisada, um grande terror tomou conta do seu corpo. Não conseguia gritar, não conseguia reagir. Estava esperando que Leo fizesse alguma coisa. E ele fez.

— Dê, está tudo bem? Que cara é essa?

Ela voltou a si. Olhou novamente para a estátua, que estava normal. Leo não parecia ter visto nada. “Estou delirando? ”, pensou ela e disse:

— Eu não consigo passar mais um minuto aqui dentro, precisamos de um plano para sair.

Ela levantou-se e foi até o vitral lateral. Observou que o guarda já voltara a seu posto e provavelmente só sairia de novo no final da próxima hora, o que ia demorar muito ainda. Denise andava impaciente de um lado para o outro. Leo parecia um pouco surpreso com a inquietação da amiga. Ele conhecia o lado esquentado dela, mas neste caso ela parecia mais perturbada do que irritada.

— Dê, o que você vai fazer com isso? Não!

A garota pegou um cálice de cima do altar e o arremessou pelo vitral da lateral do lado oposto ao do guarda. O estrondo fez com que os dois guardas fossem correndo para ver o que havia acontecido daquele lado, deixando o caminho livre para os dois saírem.

— Vamos direto para a hospedaria falar com o Edu, talvez ele tenha tido mais sucesso que a gente – falou Denise.

Os dois foram se afastando sutilmente como se nada tivesse acontecido. De longe viram que um dos guardas entrou na igreja segurando uma arma, enquanto o outro pedia reforços. “Idiotas”, pensava Denise.

Eles chegaram na hospedaria da Sra. Zenaide rapidamente. Por sorte, encontraram Eduardo na recepção. O rapaz chegara da biblioteca pouco antes deles e conversava com a Sra. Zenaide. A mulher estava maluca contando sobre os boatos que ouviu:

— É isso que estão todos dizendo na cidade! Denise! Você viu mesmo as cigarras matando o padre Luís? Meu Deus, a cidade sempre foi infestada desses bichos nessa época. Escutem o que eu digo, se as cigarras se revoltarem, não vai sobrar uma alma viva para contar a história! Mas sabem de quem é a culpa? Do novo prefeito, é claro. O homem não tem experiência, quer causar esse ano adicionando uma surpresa na festa de Halloween. Seja lá o que ele está tramando, tenho certeza que isso é o que está incomodando as cigarras. Pobre Padre Luís, não tinha nada a ver com a história.

A Sra. Zenaide foi da recepção até seu escritório tagarelando sozinha e se trancou. Denise ergueu as mãos aos céus dando graças e em seguida perguntou se Eduardo conseguiu descobrir algo. O rapaz ficou um pouco desconcertado em falar sobre isso na presença de Leo, mas Denise avisou que seu amigo também estava colaborando com as investigações.

Em seguida, Jonas, Harrison e Billy, entraram na hospedaria, cada um com uma expressão diferente. Jonas parecia extremamente amedrontado, Harrison estava muito sério e Billy andava cabisbaixo e tristonho. Os três se dirigiram para o quarto sem trocar nenhuma palavra. Leo, Denise e Eduardo se entreolharam, e o último disse:

— Bem, vocês não vão acreditar no que eu descobri. Mas vamos para meu quarto, podemos conversar lá com mais privacidade.

Os três entraram no quarto de Eduardo. Era um quarto comum, mas Leo reparou que havia equipamentos estranhos guardados em um caixote de madeira em um canto. Desde que Denise contou sobre a participação de Eduardo no plano deles, Leo o considerava suspeito. “Qual o interesse dele em participar disso? ”, pensava ele.

— Olhem só isso!

Eduardo estirou um jornal antigo em sua cama. Denise se aproximou para ler, as letras estavam bem apagadas, era um jornal de 31 de outubro de 1946, cinquenta anos atrás. Eduardo apontou uma manchete e leu em voz alta: “Menina morre engasgada com um inseto”.

— Esse inseto seria uma cigarra? – Denise perguntou.

— Permitam-me ler para vocês a notícia completa – disse o rapaz pegando o jornal novamente. Pigarreou e começou a ler:

“Mariana Moreira de 7 anos foi encontrada morta em seu quarto na manhã de ontem. Os pais de Mariana foram acorda-la para ir à escola quando se depararam com a filha caída no chão em uma fisionomia de espanto. O pai, Roger Moreira, rapidamente acionou a polícia e o pronto-socorro. Porém, o que eles não esperavam, e o que tem deixado os investigadores perplexos foi o que aconteceu quando a mãe, Glória Moreira, mexeu no corpo da filha. Ao tocar em seu rosto, a boca da menina acabou se abrindo e de dentro dela saiu uma grande cigarra, que voou em disparada para fora da casa pela janela.

O delegado Pimentel afirmou que se trata de um caso extraordinário, e que não há necessidade de pânico da população em relação as cigarras. ‘Apenas certifiquem-se de que seus filhos saibam o que pode ou não colocar na boca’, afirmou um investigador que estava no local. ”

— É quase idêntico ao caso do Padre, com exceção de que não havia uma horda de cigarras no quarto da menina. Mas eu não vejo em que essa notícia pode ajudar… – disse Leo.

— Realmente… – disse Denise – mas espere, 31 de outubro de 1946. Leo não foi em 1946 que a Azaleia Negra nasceu?
— Denise! – Gritou Leo.

— Ah, merda. Falei sem pensar.

— O que vocês sabem sobre a Azaleia Negra? – Perguntou Eduardo.

Leo e Denise o olharam em choque. Eduardo sabia da existência da Azaleia Negra. “Não que fosse um grande segredo, mas vindo de um turista, me parece suspeito”, pensava Leo.

— O que você sabe sobre a Azaleia Negra? – Denise rebateu a pergunta.

— Ei, eu perguntei primeiro – respondeu Eduardo brincando – De qualquer forma eu não sei nada sobre, mas vocês parecem saber. Se isso for ajudar a resolver o mistério das cigarras, me contem!

— Eu não confio nele – disse Leo secamente.

— Leo, se a Azaleia Negra está envolvida nisso, não temos razão para manter segredo. Mesmo que o Eduardo seja um deles… inclusive seria até melhor que fosse.

— Eu não faço parte da Azaleia Negra – respondeu Eduardo e continuou – vocês disseram que eles nasceram no ano deste incidente na notícia. Vocês sabem qual foi o dia?

— Não vamos te dizer nada. Denise, vamos embora – Leo falava irritado.

— Não, vamos contar a ele tudo o que sabemos. Eu confio ne…

— Ah não, – Leo a interrompeu – não me diga que está apaixonada por esse cara. Qual é, Denise, seu gosto já foi melhor.

— Vai se ferrar! – Denise e Eduardo responderam juntos. Denise não parava de falar que não estava apaixonada e que Leo estava com ciúmes. Enquanto Eduardo reclamava indignado sobre ser considerado de gosto ruim.

— Caraca, calem a boca! Conte de uma vez tudo a ele, mas depois não diga que eu não te avisei – disse Leo mais irritado do que nunca.

— Antes de mais nada, Edu, saiba que o que vamos contar pode te colocar em encrencas. Portanto, nunca diga nada disso a ninguém. Também não vamos falar como conseguimos essas informações. Não temos tempo e podemos dizer que foram conseguidas por meios… questionáveis.

— Tudo bem – respondeu Eduardo.

— Ótimo. Desde que eu e o Leo descobrimos sobre a existência da Ordem da Azaleia Negra, temos tentado fazer parte. Nos arriscamos muito para descobrir essas coisas, pois as pessoas da cidade têm medo. Já houve boatos sobre os desaparecimentos de algumas pessoas que estavam envolvidas com eles ou falando demais, se é que me entende. Eles são extremamente sigilosos e não temos certeza de ninguém que faça parte, apenas suposições. Por exemplo, a família Barcelos, são donos de boa parte dos comércios da cidade, é uma família muito tradicional que jamais se expôs na mídia. A família do nosso atual prefeito Lourenço, também é muito suspeita. Não temos provas, mas tenho certeza que as pessoas mais influentes na cidade estão envolvidas com a Azaleia Negra. Nossa maior descoberta, porém, foi sobre a origem deles. Eles nasceram em 1 de novembro de 1946, logo após a morte da menina da notícia. O nome, Azaleia Negra, vem do grande segredo que eles guardam. Foi naquele dia que nasceu a primeira flor de Azaleia Negra já conhecida no mundo. Não sei nada sobre como e onde ela nasceu, tampouco por quem foi cultivada. O que sabemos são seus efeitos. O pólen dessa flor é capaz de gerar ilusões em quem o inalar. Descobrimos isso da pior forma, e escapamos por sorte. Mesmo assim, é um poder incrível, meu maior desejo é fazer parte da Ordem da Azaleia Negra, mas sei que não temos como ir atrás deles, são eles que vem atrás de nós. Mas para isso, temos que provar a nossa relevância e interesse. Nosso plano é, ou pelo menos era, descobrir o grande mistério por trás da morte do padre e chamar a atenção da Ordem para nossas habilidades, mas se a própria Azaleia Negra estiver envolvida… é a melhor oportunidade para finalmente nos envolvermos, ao mesmo tempo que é o maior risco de sofrermos terríveis consequências.

— Eu acho que devemos continuar – disse Eduardo.

— O quê? Você quer entrar para a ordem também? – Perguntou Leo surpreso.

— É isso mesmo. Eu pelo menos vou tentar, ainda mais com essas novas informações que vocês me passaram. Se não quiserem me acompanhar, a escolha é de vocês – respondeu o rapaz, convicto.

— Eu confesso que até que gosto dele – comentou Denise sorrindo – eu também vou.

— Okay… e qual é o plano? – Leo perguntou.

— Eu tenho uma teoria – disse Eduardo – Me parece meio óbvio que a origem da Ordem da Azaleia Negra está associada as cigarras, não se trata de coincidências. Considerando isso um fato, podemos supor que está acontecendo novamente o que aconteceu a cinquenta anos atrás, e algo sobre a flor de azaleia negra está acontecendo. Talvez a flor seja algo que nasça a cada 50 anos, ou existe algum tipo de ritual que dê forças aos poderes do pólen. Realmente não faço ideia do que é exatamente, mas não tenho dúvidas que alguma coisa relacionada a eles vai acontecer amanhã.

— Concordo, é plausível. Porém, não temos ideia nem se quer de onde pode acontecer, nem em que horário… a não ser que… a festa de Halloween. Ela acontece no bosque, foi a direção que as cigarras voaram da igreja. Claro que isso não é grande coisa, já que lá é o habitat natural delas, mas se elas estão envolvidas, com certeza é lá que vai acontecer alguma coisa. O problema é que uma grande festa estará acontecendo, não tem como nenhum membro da Azaleia Negra agir escondido. A menos que…

— A menos que eles pretendam lançar uma ilusão em todo mundo! – Disse Leo.

Continua…

Neste mês de Agosto de 2021 estou fazendo o BEDA com postagens diárias aqui nesses 31 dias! Se você gostou do conteúdo não deixe de curtir e seguir o blog para receber notificações quando sair coisas novas e também me segue no Instagram para interagir comigo lá: @leitordossonhos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s