Resenha | Um Destino Ignorado – Agatha Christie

“Mas Lucas COMO ASSIM você se diz ser o maior fã de Agatha Christie e nunca postou a resenha de um livro dela no blog em três anos????”

Eu sei. Mas calma, eu tenho uma boa explicação. Entre 2012 e 2015 eu passei lendo somente Agatha Christie basicamente, numa maratona sem fim de mais de 80 leituras. E eu só criei o blog em 2017! Por mais que eu me lembrasse o suficiente das histórias para não querer fazer uma releitura tão cedo, eu não lembrava o suficiente para escrever uma resenha. Acabei entrando em um conflito porque, afinal, eu queria muito postar resenhas dela aqui também. Porém, agora em 2020, eu finalmente decidi começar as releituras e com isso pretendo fazer uma série de resenhas de todas as obras dela (assim como estou fazendo com Dan Brown).

E hoje vamos começar com Um Destino Ignorado, um livro que não tem Poirot, não tem Miss Marple, mas tem um contexto que se encaixa bem com a fase que estamos passando no nosso pais no momento.

“- Eu não quero ser Deus – disse ele. – Sou um homem religioso. Os ditadores é que pegam essa moléstia: querer ser Deus. Eu ainda não a contraí. – Pensou por um momento e disse: – Poderá acontecer… mas, até agora, felizmente, não.”

Sobre a História

Com certeza você já ouviu falar de Comunismo, principalmente se você está por dentro do governo atual que insiste em dizer que vivemos constantemente na ameaça do fantasma comunista querendo dominar o Brasil. Mas saiba que esse medo não é nenhuma novidade e Um Destino Ignorado vai mostrar isso.

No século XX, onde a ciência estava crescendo, jovens cientistas espalhados pelo mundo sonhavam com investimentos em suas pesquisas, sonhavam com um mundo melhor e mais justo. O problema é que o mundo não era justo, era muito difícil convencer governos e empresas, dominadas por pessoas mais velhas, sobre as vantagens de se investir em pesquisas e na ciência.

Em determinado momento, alguns cientistas jovens, porém muito talentosos, começaram a desaparecer. Não eram assassinados, não eram violentados, apenas sumiam sem deixar rastros. Ao mesmo tempo haviam boatos de que um grupo comunista, com muito poder no mundo, estava sequestrando esses cientistas com algum objetivo maléfico de dominação mundial.

Quando um cientista britânico chamado Thomas Batterton sumiu e o agente da segurança britânica, Jessop, fica encarregado de investigar o caso, ele se depara com uma grande oportunidade. Thomas deixou sua esposa ao desaparecer, mas parece que ela está indo secretamente encontrar o marido em algum lugar e, provavelmente, desaparecer como ele também. Isso faz com que a polícia acredite que todos os cientistas desaparecidos ainda estejam vivos e fique determinada a encontra-los com a ajuda da polícia francesa. Eles elaboram um plano para seguir Olive Batterton, a esposa, por onde ela for, mas acabam tendo os planos frustrados quando ela morre em um acidente de avião.

Por sorte, no mesmo local onde houve o acidente, Jessop encontra uma mulher chamada Hilary Craven que estava decidida a se suicidar após ficar sozinha no mundo depois da morte de sua filha. Hilary tem uma aparência muito semelhante a Olive, e Jessop oferece a ela um último trabalho, que poderá custar a vida dela. Afinal, se ela queria morrer, porque não fazer isso de forma útil ao mundo? Com isso em mente, ela aceitou e, disfarçada, continuou a viagem que Olive estava fazendo.

Minhas Considerações

* Início de Spoilers *

Assim que Hilary segue a trilha que Olive começou, ela se junta com outras pessoas e logo descobre que eles são todos cientistas. Porém, eles não estão sendo sequestrados, mas sim indo até um determinado lugar por vontade própria. Um lugar que lhes deu a promessa de investimento ilimitado para suas pesquisas, sem influência de governos, sem problemas com dinheiro ou qualquer coisa fútil.

Na viagem, ela vai conhecendo os outros personagens um pouco mais a fundo, assim como a mulher misteriosa que está os levando. Mas só ao chegar no centro de pesquisas que fica no meio de um deserto, disfarçada de clínica para leprosos, Hilary começa a perceber onde está se metendo. A aventura começa afeta-la de uma maneira que ela não quer mais morrer, só quer fugir de lá.

O quão curioso e de certa forma gratificante foi o final, quando a verdade vem a tona e não se tratava de nenhuma ameaça comunista. Mesmo que durante a história a autora questione através dos personagens muitas questões ditatoriais, isso era apenas uma armadilha para atrair os cientistas sonhadores. Os verdadeiros planos do dono do lugar eram nada menos que capitalistas. Ter para si todas as jovens mentes mais brilhantes do mundo, para assim dominar o mercado da ciência do futuro, onde, quando as grandes empresas perceberem que precisam desses cientistas, vão ter que recorrer a este lugar para tê-los por um preço amargo. Mostrando como é fácil manipular até as mentes mais brilhantes e a sutil linha que separa qualquer posição política da ética e da moral, através de duas ideias opostas que por terem tantas semelhanças foram confundidas. Inclusive a ponto de pessoas concluírem que a Agatha tendia mais ao liberalismo, enquanto outras concluíram que tendia mais ao socialismo, lendo o exato mesmo livro.

* Fim de Spoilers *

Como disse no começo (e vou sempre especificar em todas as resenhas da Agatha), este é um livro que não tem os principais detetives da autora. Acho importante ressaltar, pois conheço pessoas que adoram livros com o Poirot, mas não gostam com a Miss Marple, ou vice-versa, ou não gostam se não tiver nenhum dos dois. De qualquer forma, o agente Jessop é um personagem que não aparece tanto na história, tudo gira mais em volta da Hilary e acaba sendo mais um livro de espionagem do que policial.

Eu gostei muito de ter relido, me fez voltar a ter contato com o tipo de escrita da autora que eu me identifico bastante, além da nostalgia que carrega pra mim. Acho que o contexto do livro super se reflete em questões atuais, o que tornou a leitura ainda mais especial. Recomendo demais!

“Ela queria dizer:
– Por que despreza o mundo em que vivemos? Existem pessoas boas. Não é a confusão um ambiente melhor para criar bondade e individualismo que uma ordem mundial que é imposta, uma ordem que hoje pode estar certa e errada amanhã? Eu prefiro um mundo de gente com defeitos mas bondosa a um mundo de robôs superiores que não sabem o que seja a piedade e a simpatia.
Controlando-se a tempo, ela disse, em vez do que pensava, aparentando entusiasmo controlado:
– O senhor tem razão. Eu estava muito cansada. Devemos obedecer e seguir adiante.
Ele sorriu.
– Assim que se fala.”


Avaliação

Avaliação: 5 de 5.

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Um Destino Ignorado

Agatha Christie

1942 – Nova Fronteira

242 páginas (Pt/Br)

Sinopse: Um a um, os mais brilhantes cientistas do ocidente desapareciam sem que se soubesse como. Jessop, agente da Segurança Britânica, põe a sua inteligência em luta com um cérebro desconhecido, responsável por tais desaparecimentos. Thomas Betterton, um jovem gênio, é o último cientista a sumir.
Uma história de Agatha Christie é sempre um acontecimento marcante ma literatura policial. Aqui, ela desenvolve, em sua plenitude, sua genial sutileza e interpretação. Eis, portanto, algo novo e diferente, extraordinariamente emocionante, produzido pela mestra do romance policial.

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