Olá sonhadores! Durante boa parte da minha vida, tive contato principalmente com o catolicismo, religião dentro da qual cresci. Hoje, porém, não sigo nenhuma religião específica. Ainda assim, gosto bastante de conhecer diferentes crenças, filosofias e maneiras de interpretar a vida. Entre elas, o Budismo acabou se tornando uma das que mais despertaram minha curiosidade.
Foi justamente durante algumas pesquisas sobre o assunto que conheci melhor o trabalho da Monja Coen e descobri os diversos livros publicados por ela no Brasil. Para começar, escolhi 108 Contos e Parábolas Orientais, pois imaginei que pequenas histórias acompanhadas de explicações poderiam apresentar de maneira simples alguns dos principais conceitos do Budismo. Felizmente, encontrei exatamente isso.
Porém, este não é um livro indicado apenas para quem deseja conhecer melhor o Budismo. Suas reflexões abordam questões tão presentes em nosso cotidiano que leitores de diferentes crenças, inclusive aqueles que não seguem religião alguma, podem encontrar bastante coisa interessante por aqui.
“Um jovem monge perguntou ao mestre Joshu:
Mestre, o que é o despertar, a iluminação?
O mestre replicou:
Quando estiver com fome, coma. Quando estiver cansado, durma.”
Pequenas histórias que exigem grandes reflexões
Como o próprio título entrega, 108 Contos e Parábolas Orientais reúne 108 pequenas narrativas selecionadas por Monja Coen. Muitas delas são coans ligados à tradição Zen e podem parecer estranhas ou até sem sentido quando encontramos essas histórias pela primeira vez.
Os textos são extremamente curtos. Alguns ocupam poucas linhas, enquanto outros chegam a aproximadamente duas páginas. Depois de cada narrativa, Monja Coen apresenta sua própria contextualização e interpretação, aproximando aquele ensinamento de situações que podemos encontrar na vida cotidiana.
E essa segunda parte é fundamental para a experiência.
Grande parte dos contos não entrega uma mensagem pronta nem apresenta ensinamentos no formato de “faça isso” ou “viva dessa maneira”. Pelo contrário, eles exigem uma participação ativa do leitor. Precisamos refletir sobre aquilo que aconteceu, interpretar os comportamentos dos personagens e tentar compreender o significado por trás de situações aparentemente muito simples.
Consequentemente, as explicações da autora funcionam como um caminho para essa reflexão sem eliminar completamente o espaço para nossas próprias interpretações.

Ensinamentos que vão muito além da religião
Embora o Budismo seja a base da obra, eu definiria 108 Contos e Parábolas Orientais como uma mistura de contos, espiritualidade e até autoajuda. Inclusive, a própria editora classifica o livro nessa última categoria.
Isso acontece porque cada pequena história procura provocar alguma reflexão capaz de ser transportada para nossa própria vida. Entre os assuntos abordados estão o desapego, a importância de viver no presente, o amor, o medo, a vaidade, o orgulho e o respeito.
Um dos ensinamentos que mais me chamou atenção envolve justamente o desapego. Frequentemente acumulamos objetos, preocupações, desejos e expectativas sem perceber o peso que tudo isso pode adquirir. Entretanto, algumas histórias também mostram que até o desejo excessivo de se desapegar pode acabar se transformando em outra forma de apego.
Além disso, vários textos reforçam a importância de manter nossa mente no presente. Parece algo extremamente simples, mas basta observarmos nosso cotidiano para perceber como constantemente revivemos acontecimentos do passado ou antecipamos problemas que talvez nem aconteçam.
Dessa forma, apesar de suas poucas páginas, cada conto pode continuar trabalhando na cabeça do leitor muito depois que a leitura termina.
Outros livros que podem te interessar:
- A Monja e o Poeta – Monja Coen & Allan Dias Castro
- Verdade? – Monja Coen
- Da Negação ao Despertar – Monja Coen
- Ponto de Virada – Monja Coen
- Zen Para Distraídos – Monja Coen
Um livro curto que não precisa ser lido rapidamente
Outro ponto de que gostei bastante está justamente no formato da obra. Como as histórias são independentes e muito curtas, não existe a necessidade de ler várias delas de uma única vez.
Na verdade, acredito que o livro funciona ainda melhor quando fazemos o contrário.
Ler um ou dois contos, observar a interpretação de Monja Coen e reservar algum tempo para pensar sobre eles permite aproveitar melhor aquilo que a obra pretende oferecer. Portanto, é perfeitamente possível deixar o livro por perto e retornar a ele regularmente, quase como um pequeno exercício de reflexão.
A escrita da autora também ajuda bastante nesse processo. Mesmo quando parte de conceitos ligados ao Budismo Zen, Monja Coen procura aproximá-los da realidade contemporânea, tornando a leitura acessível até para quem nunca estudou o assunto anteriormente.

Por que são exatamente 108 histórias?
O número presente no título também não foi escolhido ao acaso. O 108 possui um significado importante em tradições budistas. Na tradição Soto Zen, por exemplo, os tradicionais rosários conhecidos como juzu costumam ter 108 contas, relacionadas às 108 ilusões ou delusões humanas. Por isso, o número aparece em diferentes práticas e símbolos do Budismo.
Essa escolha torna ainda mais interessante a proposta de reunir exatamente 108 histórias que, de diferentes maneiras, procuram provocar reflexões sobre nossa própria mente e nosso comportamento.
“Durante um reinado da Dinastia Tang, na China, um dos ministros comentou com o imperador:
– Algumas pessoas estão difamando Vossa Majestade.
O imperador respondeu:
– Como soberano, se acaso me cabe alguma virtude, não posso ter medo de ser difamado pelas pessoas. O que mais devo temer é ser elogiado sem ter nenhuma virtude.”
Vale a pena ler 108 Contos e Parábolas Orientais?
Eu recomendo bastante 108 Contos e Parábolas Orientais, principalmente para quem deseja conhecer alguns ensinamentos budistas de maneira acessível, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir um pouco sobre a própria vida.
E não acredito que leitores de outras religiões devam encarar isso como uma barreira. O livro não tenta converter ninguém. Pelo contrário, conhecer outras crenças, filosofias e culturas pode ampliar nossa maneira de observar o mundo sem exigir que abandonemos aquilo em que acreditamos.
Para mim, religiões e diferentes formas de pensamento não precisam ser inimigas. Podemos aprender bastante quando estamos dispostos a conhecer aquilo que existe além da nossa própria experiência.
Afinal, nosso mundo é diverso e interessante demais para passarmos a vida limitados apenas àquilo que já conhecemos.
Avaliação
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108 Contos e Parábolas Orientais
Monja Coen
ISBN: 978-85-422-1635-6
2019 – Academia
240 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
Sabedoria para o dia a dia, tranquilidade e satisfação para a alma.
Quando lidos pela primeira vez, sem muita atenção, os coans podem parecer histórias sem sentido. Mas estes pequenos textos foram responsáveis pelo esclarecimento espiritual e iluminação da mente de grandes mestres da Índia, China e Japão no decorrer dos séculos.
Literalmente, a palavra koan – na língua portuguesa coan – significa proclamação pública. Era usada para nomear os comunicados feitos pelos imperadores orientais. A prática budista se apropriou dela e até hoje intitula parábolas que têm a função de transcender a realidade e proclamar alguns conceitos que não são facilmente explicitados em palavras.
Monja Coen, a partir de anais de grandes nomes da tradição Soto Zen Budista dos séculos XII e XIII, selecionou 108 coans e os aplicou ao cotidiano moderno, com a intenção de tornar a experiência de leitura destes textos mais compreensível.
Temas atuais como desapego material, decisões pessoais, relacionamentos, moral e muitos outros serão discutidos.
Uma reflexão profunda será possível a partir de poucas palavras. De maneira impressionante, estes breves contos são capazes de abrir a mente, tranquilizar a alma e trazer novas respostas para antigas perguntas.