Resenha | Ponti – Sharlene Teo

Olá, Sonhadores! Se é um livro diferentão que você queria, então hoje vou te entregar. Li este livro no clube de leitura do blog Mãe Literatura no mês de Agosto e ele foi um daqueles controversos que agradaram uns e desagradaram outros. O que não me surpreende, visto que ele foge muito dos padrões que estamos acostumados. Mas vamos lá que tem MUITA coisa pra falar sobre ele.

“As pessoas não percebem o quanto querem que sua fraqueza seja explorada; o quanto querem ser punidas por serem elas mesmas.”

Sobre a História

Se você costuma acompanhar as minhas resenhas, talvez já tenha percebido que em algumas eu uso esse formato dividindo onde eu falo sobre a história e depois coloco as minhas considerações. Mas tem casos que eu não uso, faço um texto direto. Eu mudo de acordo com o que sinto se encaixar melhor com o livro e com o que eu quero passar. Para Ponti eu pensei em tirar porque simplesmente não faz sentido eu falar sobre a história, pois não tem história. É um romance sim, conta o que aconteceu com as personagens, mas é diferente, pois não tem um começo, meio e fim. É um livro que desde o começo você não faz ideia de para onde vai, não tem nenhum grande conflito a ser resolvido. Ele é mais sobre as relações entre as personagens e os acontecimentos casuais que acontecem na vida delas, mostrando como elas se comportavam em certas situações, como lidavam com conflitos pontuais e como agiam uma com a outra. Isso faz com que entendamos quem elas foram e o que (e porquê) elas se tornaram no futuro.

Então decidi manter essa divisão para mostrar que nem todas as histórias tem o mesmo formato. Algumas podem seguir a clássica jornada do herói, mas existem diversos tipos de histórias diferentes. E já que não tem muito o que falar da trama em si, vou falar brevemente das personagens: primeiro temos Szu, que é uma adolescente totalmente deslocada, insegura e cheio de problemas psicológicos causados, principalmente, por ter uma mãe extremamente problemática e pela ausência do pai que abandonou a família. A mãe, chamada Amisa, teve uma infância pobre, mas sempre foi ambiciosa. Depois de passar poucas e boas na vida chegou a estrelar um filme (chamado Ponti), mas que não fez sucesso e sua carreira foi um desastre. Por fim temos Circe, uma menina também um pouco deslocada da escola de Szu. Elas acabam se tornando amigas, mas não é bem uma relação muito saudável, pois assim como Szu, Circe também tem seus problemas pessoais. Essas faltas que temos na infância refletem muito no nosso crescimento e nas nossas relações e esse livro mostra bem isso.

Ainda dentro deste tópico, já quero inserir mais uma coisa que torna esse livro diferente: ele se passa em Singapura. Nunca li nada sobre e nem que se passe nesse pais. Não conhecia nada da cultura do local, apenas o que vemos hoje em dia na mídia sobre ser um pais extremamente desenvolvido. Mas nem sempre foi assim, antigamente o lugar passava por problemas de extrema pobreza. E esse livro, de forma muito inteligente, nos mostra esses dois cenários, pois a história é dividida em três períodos: o passado pobre do país, narrando a infância de Amisa até ela alcançar sua carreira de atriz. Depois temos o período da adolescência de Szu e Circe, mostrando as relações das três personagens. E, por fim, os dias atuais, focado na vida adulta de Circe, quando o país já está super desenvolvido.

Minhas Considerações

Acho que a característica mais marcante desse livro você já percebe nas primeiras páginas: ele é repugnante, nojento. Não sei porquê, mas durante todo o livro a autora narra detalhes muito desagradáveis e, pior, ela é super boa nisso. Ela comenta desde o calor intenso e o suor das pessoas, passando pelo mau cheiro ambiente, misturado com comidas nada apetitosas, mas também reflete esse ranço nos comportamentos de todas as personagens, até as menos relevantes. Não sei o objetivo da autora com isso, mas ela conseguiu causar o impacto que queria. E isso já foi um motivo pra desagradar bastante leitoras. Eu não me incomodei tanto, acho que super ajudou na ambientação e o fato dela ter feito com maestria me faz querer valorizar isso neste livro. O único problema é que me passou uma péssima impressão do país e da cultura de lá… e a autora é de Singapura, então porque ela iria querer causar essa impressão, né? Será que as coisas lá são realmente assim e ela só quis passar realidade? Não sei.

O fato da história não ter uma trama linear também foi um dos pilares que desagradaram alguns leitores. Eu sou uma dessas pessoas que ODEIA livros com finais em aberto e esse livro, a princípio, aparenta ser assim. Mas quando a gente olha com mais calma, não é sobre isso. Desta vez eu não me incomodei com o final, pois ele nunca prometeu chegar em lugar nenhum. A única coisa que ele prometeu foi contar o que aconteceu com essas personagens. E ele faz isso a ponto de ter conseguido me satisfazer e sentir que a história que essas pessoas passaram acabou, e daqui em diante pode até acontecer outras coisas com elas, mas seriam outras histórias. Tanto que o livro da muita margem para continuações.

O que me incomodou nessas pontas que ficaram soltas foram algumas faltas de explicações de porquês. Tem personagens que eu não quero saber que fim ele teve, quero saber o motivo dele ter feito o que fez ao longa da história. Isso para mim que é um problema que incomoda. Outra coisa que me incomodou um pouco foram algumas decisões de autora sobre alguns acontecimentos, foram poucos, mas queria deixar registrado que deixaram a desejar e me decepcionaram. E só por causa desses pontos acabei não dando cinco estrelas.

Enfim, sendo honesto, é um livro muito bom, mas que não recomendo para qualquer um, não. Para encarar Ponti você precisa se desprender de algumas coisas que está acostumado em livros e ir com a mente aberta. Não vai ter aquele clímax que você espera, não vai ter personagens que você vai gostar (apesar de eu ter gostado da Amisa do passado), e o livro vai o tempo inteiro tentar de deixar desconfortável (e vai conseguir).

“O luto transforma as pessoas em fantasmas. Não me refiro apenas às que se vão, mas às que ficam.”


Avaliação

Avaliação: 4 de 5.

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Ponti

Sharlene Teo

ISBN: 978-85-510-0482-1

2019 – Intrínseca

272 páginas (Pt/Br)

Sinopse: Cingapura, 2003. Sem amigos e abandonada pelo pai, a adolescente Szu vive à sombra da mãe, Amisa, uma ex-atriz que ganha a vida ao lado da irmã como médium, em uma casa caindo aos pedaços. Quando Szu conhece Circe, uma menina privilegiada e sarcástica, as duas constroem uma amizade intensa, um alívio para o ambiente tóxico controlado por Amisa e a inadequação que Szu sente no colégio. Mas não demora muito para que Circe fique fascinada pela intocável ex-atriz e as três estabeleçam uma dinâmica que as marcará para sempre.
Dezessete anos depois, Circe está lidando com os desdobramentos de um divórcio complicado, quando um projeto novo surge no trabalho: a refilmagem do filme cult de terror dos anos 1970 Ponti!, a obra que definiu a curta carreira de Amisa. De uma hora para outra, Circe perde o chão e mergulha nas memórias das mulheres que ela conheceu, na culpa e em um passado que ameaça sua consciência tranquila.
Contado pela perspectiva das três mulheres em momentos distintos de suas vidas, Ponti, livro considerado “Incrível” por Ian McEwan, é uma história original sobre amizade e memória no breve espaço de algumas décadas. Um retrato generoso da avassaladora solidão da adolescência e um vislumbre de como pequenas e grandes tragédias podem nos tornar monstros.

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