Olá, Sonhadores! Se você estava procurando um livro diferente do comum, Ponti, de Sharlene Teo, certamente entrega essa experiência. Eu li a obra durante o clube de leitura do blog Mãe Literatura, no mês de agosto, e ela foi uma daquelas leituras que dividiram opiniões: algumas pessoas gostaram bastante, enquanto outras não conseguiram se conectar com a proposta.
Sinceramente, isso não me surpreendeu. Afinal, Ponti foge de muitos padrões aos quais estamos acostumados em romances. Ele não é um livro que conduz o leitor por uma trama tradicional, com começo, meio, fim, grande conflito e resolução clara. Pelo contrário, a obra parece mais interessada em observar suas personagens, suas relações e as marcas deixadas pelo passado.
Justamente por isso, é uma leitura que exige uma certa abertura. Quem procura uma história objetiva, com clímax evidente e respostas bem amarradas, talvez se frustre. Porém, quem gosta de livros mais sensoriais, estranhos e focados em personagens pode encontrar aqui algo bastante marcante.
Uma história sobre relações, ausências e consequências
Falar sobre a trama de Ponti não é tão simples, porque o livro não segue uma narrativa linear convencional. Em vez de apresentar um grande problema a ser resolvido, Sharlene Teo constrói uma história sobre pessoas quebradas, relações complicadas e acontecimentos aparentemente cotidianos que, aos poucos, revelam quem essas personagens foram e o que se tornaram.
A narrativa acompanha principalmente três mulheres. A primeira é Szu, uma adolescente deslocada, insegura e marcada por uma vida familiar bastante difícil. Parte de seus problemas vem da relação complicada com a mãe e da ausência do pai, que abandonou a família. Sua mãe, Amisa, também carrega um passado pesado. Ela cresceu em meio à pobreza, mas sempre teve ambições maiores. Em determinado momento da vida, chegou a estrelar um filme chamado Ponti, mas sua tentativa de construir uma carreira artística acabou não dando certo.
Por fim, temos Circe, uma colega de escola de Szu que também se sente deslocada. As duas acabam se aproximando, mas essa amizade está longe de ser simples ou saudável. Pelo contrário, a relação entre elas é cheia de inseguranças, ressentimentos e problemas pessoais mal resolvidos.
Dessa forma, o livro trabalha muito bem a ideia de que as faltas da infância podem acompanhar uma pessoa por muitos anos. Além disso, mostra como essas ausências influenciam nossas escolhas, nossos vínculos e até a maneira como enxergamos o mundo.
“As pessoas não percebem o quanto querem que sua fraqueza seja explorada; o quanto querem ser punidas por serem elas mesmas.”
Singapura como cenário de contrastes
Outro ponto interessante é o fato de a história se passar em Singapura, um país sobre o qual eu praticamente nunca tinha lido nada em romances. Hoje, o que mais chega até nós é a imagem de um lugar extremamente moderno e desenvolvido. Entretanto, o livro mostra também um passado marcado por pobreza, limitações e desigualdades.
A narrativa é dividida em três períodos. Primeiro, acompanhamos o passado de Amisa, desde sua infância até sua tentativa de se tornar atriz. Depois, vemos a adolescência de Szu e Circe, momento em que as relações entre as três personagens ficam mais evidentes. Por fim, acompanhamos Circe na vida adulta, em um período no qual Singapura já aparece como um país muito mais desenvolvido.
Esse contraste entre passado e presente é um dos elementos mais interessantes da obra. Além de situar melhor as personagens, ele também ajuda a mostrar como o ambiente ao redor delas muda, mesmo que certas marcas pessoais continuem presentes.

Uma ambientação repugnante, mas muito eficiente
Uma das características mais fortes de Ponti aparece logo nas primeiras páginas: este é um livro desconfortável. A autora descreve sensações desagradáveis com muita habilidade. O calor intenso, o suor, os cheiros ruins, a comida pouco apetitosa e até o comportamento das personagens criam uma atmosfera incômoda, quase sufocante.
Curiosamente, isso não me incomodou tanto quanto eu imaginei que poderia. Pelo contrário, achei que esse aspecto ajudou bastante na ambientação. Sharlene Teo sabe construir imagens sensoriais e, mesmo quando elas são repulsivas, é impossível negar que funcionam muito bem dentro da proposta do livro.
Ainda assim, essa escolha pode afastar muitos leitores. Além disso, confesso que fiquei com uma impressão bastante negativa do país e da cultura retratados, justamente por causa dessa ambientação tão desagradável. Como a própria autora é de Singapura, fiquei me perguntando se essa era uma tentativa de retratar uma realidade específica, uma memória pessoal ou apenas uma escolha estética para causar desconforto.
Outros livros que podem te interessar:
- Kim Jiyoung, nascida em 1982 – Cho Nam-Joo
- O Sanatório – Sarah Pearse
- Os Abismos – Pilar Quintana
- Rosas Esquecidas – Martha Hall Kelly
- As Vitoriosas – Laetitia Colombani
Uma narrativa sem promessas tradicionais
Outro ponto que pode incomodar é a falta de uma trama tradicional. Eu, particularmente, costumo não gostar de finais muito abertos. No entanto, neste caso, não senti que o final fosse exatamente um problema. Isso porque o livro nunca promete chegar a um grande destino. Ele não cria a expectativa de uma resolução grandiosa. A proposta é acompanhar essas personagens, entender suas relações e observar como elas chegaram até ali.
Nesse sentido, a conclusão me pareceu coerente. A história daquelas pessoas, pelo menos naquele recorte específico, foi contada. A partir dali, outras coisas poderiam acontecer, mas já seriam outras histórias. Inclusive, o livro deixa espaço suficiente para continuações, caso esse fosse o caminho escolhido.
Por outro lado, algumas pontas soltas me incomodaram. Não necessariamente por eu querer saber o destino de certos personagens, mas porque gostaria de entender melhor as motivações por trás de algumas atitudes. Em alguns momentos, faltaram explicações sobre o porquê de certas decisões, e isso acabou prejudicando um pouco minha experiência.
Além disso, algumas escolhas da autora em relação a determinados acontecimentos me decepcionaram. Foram poucos momentos, mas suficientes para impedir que eu desse nota máxima ao livro.
“O luto transforma as pessoas em fantasmas. Não me refiro apenas às que se vão, mas às que ficam.”
Vale a pena ler Ponti?
No fim das contas, Ponti é um livro muito bom, mas definitivamente não é uma recomendação para qualquer leitor. Para encarar essa leitura, é preciso deixar de lado algumas expectativas comuns. Não espere uma trama cheia de reviravoltas, personagens carismáticas ou um clímax emocionante. Também não espere conforto.
O que Sharlene Teo entrega é uma história estranha, sensorial, incômoda e muito focada nas marcas que as pessoas carregam. Apesar dos pontos que me incomodaram, reconheço a força da escrita e a ousadia da proposta. Portanto, recomendo Ponti para quem gosta de romances literários, narrativas fora do padrão e livros que exploram relações humanas de maneira pouco convencional.
Avaliação
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Ponti
Sharlene Teo
ISBN: 978-85-510-0482-1
2019 – Intrínseca
272 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
Cingapura, 2003. Sem amigos e abandonada pelo pai, a adolescente Szu vive à sombra da mãe, Amisa, uma ex-atriz que ganha a vida ao lado da irmã como médium, em uma casa caindo aos pedaços. Quando Szu conhece Circe, uma menina privilegiada e sarcástica, as duas constroem uma amizade intensa, um alívio para o ambiente tóxico controlado por Amisa e a inadequação que Szu sente no colégio. Mas não demora muito para que Circe fique fascinada pela intocável ex-atriz e as três estabeleçam uma dinâmica que as marcará para sempre.
Dezessete anos depois, Circe está lidando com os desdobramentos de um divórcio complicado, quando um projeto novo surge no trabalho: a refilmagem do filme cult de terror dos anos 1970 Ponti!, a obra que definiu a curta carreira de Amisa. De uma hora para outra, Circe perde o chão e mergulha nas memórias das mulheres que ela conheceu, na culpa e em um passado que ameaça sua consciência tranquila.
Contado pela perspectiva das três mulheres em momentos distintos de suas vidas, Ponti, livro considerado “Incrível” por Ian McEwan, é uma história original sobre amizade e memória no breve espaço de algumas décadas. Um retrato generoso da avassaladora solidão da adolescência e um vislumbre de como pequenas e grandes tragédias podem nos tornar monstros.