O Canto da Cigarra – Parte 4 – Madrugada

Olá, Sonhadores! Bem-vindo a última parte do meu conto! Caso tenha caído aqui de paraquedas e não leu ainda s partes anteriores, seguem os links: Parte 1 – Manhã, Parte 2 – Tarde e Parte 3 – Noite. Boa leitura!


— Não há necessidade de violência – disse o padre, apontando para Daisy e Rowan abaixarem as armas. – Eu previ que haveriam muitos espiões de todo o mundo atrás do meu tesouro. Coloquei todos os membros da Azaleia Negra de olhos nos turistas, mas vejo que eles subestimaram um adorável casal de idosos. Já aquele casal homossexual pecaminoso foi fácil de afastar, bastou ameaçarmos a vida do menino.

Todos estavam em choque ao ver o padre que deveria estar morto. Neste momento, Daisy e Rowan avançaram atirando nele, em um movimento inesperadamente rápido para suas idades. Os tiros atingiam cada parte do corpo, o sangue começou a se espalhar pelo manto negro e ele caiu.

— É tarde demais – disse o padre ressurgindo atrás de todos – Todos vocês já caíram na ilusão da Azaleia Negra.

O falso corpo do padre, que permanecia inerte até então, se levantou e voou em direção a Daisy e Rowan, que se assustaram drasticamente. Denise, Leo e Eduardo não puderam fazer nada, o velho casal havia desmaiado com o susto, talvez até morrido. Por mais incríveis que eles parecessem, um choque desses poderia afetar fatalmente um coração frágil.

— Eu não estou entendo, você estava morto na igreja – disse Denise se virando para o padre, que havia desaparecido e reaparecido novamente ao lado do buraco negro.

— Meus jovens, o que vocês presenciaram não foi nada menos do que uma ilusão, a igreja estava repleta de pólen – disse o padre Luís.

— Então foi por isso… mesmo depois de algumas horas ainda havia resquícios de pólen na igreja que me fizeram ver a estátua de Santo André se mexer – disse Denise.

— Assim como as cigarras, vocês se meteram em algo que não podem compreender. Há mistérios que nem mesmo eu reconheço – o padre falou.

— As cigarras? – Perguntou Leo.

— Sim – respondeu o padre suavemente – o pólen da Azaleia Negra atrai as cigarras, mas de forma negativa. Elas o odeiam.

— Agora tudo faz sentido – disse Eduardo – as cigarras surgiram na festa para eliminar o pólen, da mesma forma que devem ter feito com o pólen espalhado na igreja. E por isso este caso foi diferente da morte da menina que encontramos na notícia. No caso dela havia apenas cigarra na boca, enquanto na igreja havia um enxame.

— Foi um risco que corri, mas não posso dizer que deu errado. Vocês caíram na minha ilusão ao entrarem na igreja, e as próprias cigarras os fizeram sair correndo quando tentaram eliminar o pólen. Somente meu fiel amigo, delegado Robson, voltou para, teoricamente, levar meu corpo.

— Mas por que você fez isso? – Questionou Denise.

— Minha querida, a cinquenta anos eu tenho aguardado para encontrar esse portal novamente – ele apontou para o pequeno buraco negro no chão – eu não conheço seus mistérios, mas foi a partir dele que as flores de azaleia ganharam seus poderes, se tornando negras. A morte da menina que vocês comentaram, foi o que chamou a atenção de todos para as cigarras na época. Elas estavam inquietas e se multiplicando. Eu e alguns habitantes partimos para a floresta investigar a causa. Segundo os pais da garota, ela foi brincar no bosque na tarde anterior a sua morte. Eu descobri tudo por acaso, encontrei essa clareira, mas o portal acabou se fechando antes que eu pudesse me aproximar. Coletei as flores e imediatamente descobri suas propriedades ilusórias. Eu era um padre novo, tinha meus ideais, grandes planos para espalhar a palavra de Deus. E Ele colocou em minhas mãos a ferramenta que eu deveria utilizar. Foi então, decidi formar a Ordem da Azaleia Negra. Eu teria influência em toda a cidade. Mas infelizmente com o poder vem algumas ameaças. Tive que manter tudo em segredo, agir discretamente. Minhas investigações ao longo dos anos me revelaram que o poder recebido pela flor não é algo desconhecido pelo homem. Existe gente mais poderosa que eu neste mundo. Mas não por muito tempo…

O padre fez uma pausa e sentou-se ao lado das flores. Ficou um silêncio enquanto Leo, Denise e Eduardo digeriam a história.

— Cinquenta anos depois, percebemos novamente a manifestação das cigarras. Tive certeza que o portal apareceria novamente. Um grande mistério envolve esse portal, o novo amigo de vocês poderia nos explicar, não é mesmo? – Disse o padre apontando para Eduardo.

Leo e Denise se viraram para ele, que recuou.

— Certo – Eduardo começou a falar – eu não fui plenamente sincero com vocês. Eu tinha conhecimento deste portal, foi para isso que fui enviado aqui. Provavelmente Mr. e Mrs. Leak também vieram pela mesma razão. Trabalho para uma organização que tem o objetivo identificar esses portais. São fenômenos que acontecem em várias partes do mundo e em diferentes proporções. Esses que vocês veem é um portal pequeno, intransponível para um ser humano. Porém, os efeitos que eles causam podem ser catastróficos. Uma grande quantidade de energia é gerada em volta do portal, atingindo todo e qualquer ser vivo aos arredores. Essa energia pode causar os mais variados efeitos no que atingem. No caso da flor de azaleia, surgiram as propriedades ilusórias.

— Precisamente – disse o padre – e é por isso que eu estou aqui, me banhando da energia do portal. Simulei minha morte para criar uma lenda, vou ressuscitar, assim como nosso Senhor Jesus Cristo. E com meus poderes, por ele dado diretamente ao meu corpo, através de seus portais, vou governar em seu nome.

— Ele está maluco, esses portais não podem ser uma coisa de Deus – disse Denise.

— Eu estou maluco? – Disse o padre, rindo – Você e seu amigo sempre tentaram se meter conosco, acha que nunca percebemos? Lembro-me claramente da cara de espanto de vocês ao presenciarem um ritual de sacrifício demoníaco, achando que era obra da Ordem da Azaleia Negra. Não sei como descobriram tantas informações sobre nós. Tentei afasta-los com esses tipos de ilusões, mas vejo que não deu certo.

— Nós gostaríamos de fazer parte da Azaleia Negra. Tem sido nosso objetivo por anos. Também queríamos poder e influência, queríamos fazer parte de algo maior do que nossas simples vidas, mas nos enganamos… – disse Denise.

E seu plano fracassou – disse Eduardo – não vou permitir que consiga novos poderes.

— Fracassei? – Disse o padre desaparecendo e reaparecendo novamente em frente a Eduardo – Vocês não podem fazer nada contra mim enquanto estiverem na minha ilusão – ele ria, sentia mais do que nunca a energia do portal tomar conta de seu corpo.

— Nós não faremos nada – disse Leo sorrindo – elas farão.

Um enxame de cigarras apareceu através do bosque e começaram a sobrevoar a clareira, emitindo novamente o canto que fizeram ao dissolver a névoa. Não era possível ouvir mais nada e Leo teve que gritar:

— Acabou. A energia do portal está em você, as cigarras não te deixarão em paz.

O rosto do padre Luís se solidificou em espanto, da mesma forma que fora encontrado na igreja. Sabia que era seu fim, sabia que tinha perdido. O enxame de cigarras atacou e consumiu o corpo do padre, até não restar mais nada. O portal se fechou e as cigarras voaram embora, vitoriosas.

Eduardo coletou as flores de azaleia negra que restaram. Disse que as levaria para o laboratório de sua organização para fazerem pesquisas. Havia muitas coisas ainda não compreendidas sobre tudo isso.

Eles acordaram Rowan e Daisy, o coração deles não eram tão fracos quanto imaginavam. No caminho para a festa, desamarraram o delegado Robson e contaram tudo o que aconteceu. Era o fim da Ordem da Azaleia Negra. O delegado disse que se encarregaria de espalhar a notícia e desfazer a ordem, contanto que todos mantivessem tudo sob sigilo.

— É Leo, jamais entraremos para essa organização secreta agora – disse Denise.

— Por outro lado… – respondeu Leo.

Ele e Denise encaravam Eduardo.

Fim.

Neste mês de Agosto de 2021 estou fazendo o BEDA com postagens diárias aqui nesses 31 dias! Se você gostou do conteúdo não deixe de curtir e seguir o blog para receber notificações quando sair coisas novas e também me segue no Instagram para interagir comigo lá: @leitordossonhos!

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