Olá, Sonhadores! Durante muito tempo, relutei em trazer William Shakespeare para o blog. Afinal, o que eu poderia acrescentar sobre um dos autores mais conhecidos, estudados e adaptados de todos os tempos? Suas histórias atravessaram séculos, inspiraram inúmeras produções e continuam sendo discutidas tanto no meio acadêmico quanto na cultura popular.
No entanto, percebi que uma resenha não precisa apresentar uma descoberta revolucionária sobre uma obra. Ela também pode registrar uma experiência pessoal de leitura. Por isso, decidi compartilhar como foi meu primeiro contato com Romeu e Julieta, uma das tragédias mais famosas da literatura mundial.
Por que decidi finalmente ler Shakespeare?
Desde o início, eu sabia que não seria uma leitura fácil. Além de ter sido escrita há vários séculos, a obra possui uma linguagem bastante diferente daquela encontrada nos livros contemporâneos. O formato teatral também foge do tipo de narrativa que costumo ler, pois a história se desenvolve principalmente por meio de diálogos e indicações de cena.
Ainda assim, quis enfrentar o desafio. Afinal, essa é uma história que serviu de referência para tantas outras que conhecer sua versão original parecia uma etapa importante da minha jornada como leitor.
Uma tragédia que todos parecem conhecer
A história se passa em Verona, onde duas famílias tradicionais, os Montecchio e os Capuleto, mantêm uma rivalidade antiga e violenta. Em meio a esse conflito, Romeu Montecchio conhece Julieta Capuleto durante uma festa e os dois se apaixonam imediatamente.
Entretanto, o relacionamento é impossível aos olhos de suas famílias. Por isso, os jovens começam a se encontrar escondidos e procuram uma maneira de permanecer juntos, apesar do ódio que existe ao redor deles. A partir desse momento, decisões impulsivas, desencontros e acontecimentos inesperados conduzem a trama ao seu conhecido desfecho trágico.
Provavelmente, poucas pessoas começam Romeu e Julieta sem saber como a história termina. Parece que já nascemos conhecendo o destino do casal. Consequentemente, minha maior curiosidade durante a leitura não estava no final, mas nos detalhes: eu queria entender a sucessão de acontecimentos que levaria os personagens até aquele ponto.
Mesmo conhecendo o resultado, foi interessante acompanhar como cada conflito, escolha precipitada e falha de comunicação contribui para a tragédia. Shakespeare constrói uma sensação crescente de inevitabilidade, como se os personagens estivessem presos em uma sequência de eventos que já não conseguem controlar.
Quando um final triste também pode ser satisfatório
Uma das coisas que mais apreciei foi justamente o desfecho. Eu gosto quando uma história não termina de maneira feliz, mas ainda assim apresenta uma conclusão coerente e satisfatória. Nesse caso, a tragédia não acontece apenas para provocar tristeza. Ela representa o resultado extremo da intolerância, da violência e da rivalidade alimentada pelas duas famílias.
Embora as histórias de amor sejam muito comuns, é impressionante perceber como o tema nunca se esgota completamente. Existem inúmeras maneiras de amar, diferentes formas de se relacionar e, sobretudo, muitos conflitos capazes de impedir duas pessoas de ficarem juntas.
Como homem gay, consigo me identificar com alguns sentimentos presentes na obra, principalmente com o medo de viver um amor que a família ou a sociedade talvez não aceite. Evidentemente, os contextos não são iguais. No entanto, a sensação de precisar esconder uma relação ou lutar contra as expectativas das outras pessoas permanece reconhecível.
Talvez essa seja uma das razões pelas quais Romeu e Julieta continua fazendo tanto sucesso. Embora tenha sido escrita entre aproximadamente 1594 e 1596, a peça aborda sentimentos e conflitos que ainda encontram correspondência na vida de muitos leitores. O amor proibido, a pressão familiar e a intolerância atravessam épocas e culturas.
Outros livros que podem te interessar:
- Orgulho e Preconceito – Jane Austen
- O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
- Mulheres Apaixonadas – D.H. Lawrence
- Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez
- O Fantasma da Ópera – Gaston Leroux
Uma leitura que exige paciência
Apesar de reconhecer a importância da obra, tive bastante dificuldade com a escrita. O vocabulário, a construção das frases e o próprio formato teatral tornaram meu ritmo de leitura mais lento. Em vários momentos, precisei reler determinadas passagens para compreender o que estava acontecendo ou qual era a intenção dos diálogos.
Além disso, como a narrativa foi criada para ser encenada, algumas cenas provavelmente funcionam melhor no palco do que na leitura silenciosa. A interpretação dos atores, a entonação das falas e os elementos visuais podem tornar certas situações mais naturais e acessíveis.
Por esse motivo, acredito que a tradução e a edição escolhidas fazem muita diferença. Uma edição com notas explicativas pode ajudar bastante quem ainda não está acostumado com Shakespeare.
Romeu e Julieta não foi uma história totalmente original
Uma curiosidade interessante é que Shakespeare não criou do zero a história dos amantes de Verona. Sua principal fonte foi o poema narrativo The Tragicall Historye of Romeus and Juliet, publicado por Arthur Brooke em 1562. Esse poema, por sua vez, foi baseado em uma tradução francesa de uma narrativa do escritor italiano Matteo Bandello.
Portanto, Shakespeare transformou uma história que já circulava anteriormente. Entretanto, sua versão se tornou tão influente que Romeu e Julieta passaram a representar, no imaginário popular, o modelo definitivo dos amantes separados por forças externas.
Vale a pena ler Romeu e Julieta?
Eu recomendo Romeu e Julieta, principalmente para quem deseja conhecer melhor os clássicos ou compreender uma das maiores referências das histórias de amor ocidentais. Porém, não considero uma leitura que deva ser feita por obrigação.
É preciso estar disposto a lidar com uma linguagem mais difícil, um ritmo diferente e uma estrutura teatral. Caso contrário, a experiência pode se tornar frustrante. Assim, acredito que o melhor é esperar até sentir que chegou o momento de enfrentar a obra.
Mesmo com as dificuldades, fico feliz por finalmente ter conhecido a versão original dessa tragédia. Mais do que uma história sobre dois jovens apaixonados, Romeu e Julieta é uma obra sobre intolerância, impulsividade e as consequências devastadoras de um conflito que ninguém parece disposto a encerrar.
Avaliação
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Romeu e Julieta
William Shakespeare
ISBN: 978-85-828-5040-4
2016 – Penguin Companhia
248 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.