Olá, Sonhadores! Às vezes, lemos um livro ruim e decidimos nunca mais dar outra chance ao autor. Em outras ocasiões, insistimos e acabamos cometendo o mesmo erro. Porém, de vez em quando, essa segunda oportunidade consegue nos surpreender. Foi justamente isso que me levou até O Retiro, de Sarah Pearse, segundo thriller policial da autora e também o segundo livro protagonizado pela detetive Elin Warner.
Em 2021, trouxe aqui para o blog a resenha de O Sanatório, uma leitura um tanto controversa. Li o livro em um clube e, apesar das opiniões diferentes, chegamos praticamente ao mesmo diagnóstico: Sarah Pearse sabia prender nossa atenção e construir uma narrativa fluida, mas apresentava problemas em quase todo o restante. Por isso, quando O Retiro foi lançado, surgiu a curiosidade para descobrir se a autora havia evoluído. E posso adiantar que sim. Pelo menos em alguns aspectos.
Um resort paradisíaco com um passado nada agradável
Apesar de trazer novamente Elin Warner como protagonista, O Retiro não funciona exatamente como uma continuação direta de O Sanatório. Cada livro apresenta um novo caso, enquanto a trajetória pessoal da detetive avança aos poucos. Portanto, é possível começar por este volume sem grandes dificuldades.
Dessa vez, a história se passa em um resort de luxo recém-inaugurado em uma pequena ilha. Um grupo formado por irmãs e seus respectivos parceiros viaja até o local na tentativa de fortalecer os laços familiares depois de um período de afastamento.
Entretanto, apesar de toda a modernidade e do conforto oferecido pelo resort, a ilha está longe de transmitir tranquilidade. Além de uma enorme formação rochosa que contribui para sua atmosfera sinistra, o lugar carrega histórias perturbadoras relacionadas ao seu passado.
Como estamos falando de um thriller ambientado em um espaço isolado, obviamente não demora muito para as mortes começarem.
Elin é chamada para investigar o caso, mas precisa lidar ao mesmo tempo com seus próprios traumas. Para complicar ainda mais a situação, seu namorado possui uma ligação direta com o resort, já que participou do projeto arquitetônico do local. Assim, questões pessoais começam a interferir na investigação e na maneira como ela interpreta determinados acontecimentos.
Sarah Pearse melhorou, mas ainda não chegou lá
A principal pergunta que eu tinha antes dessa leitura era simples: Sarah Pearse conseguiu entregar um livro melhor do que O Sanatório? Para mim, a resposta é sim.
Primeiramente, a autora manteve aquilo que considero sua maior qualidade: a capacidade de prender o leitor. O Retiro possui uma leitura rápida, capítulos que incentivam a continuar e acontecimentos suficientes para manter a curiosidade sobre o que realmente está acontecendo na ilha.
Além disso, um dos meus maiores problemas com o livro anterior praticamente desapareceu. Em O Sanatório, senti que a autora recorria a alguns absurdos simplesmente para provocar choque. Aqui, ela trabalha melhor as reviravoltas.
Sua estratégia favorita consiste em conduzir o leitor até uma conclusão e, pouco depois, revelar que aquela situação significava algo completamente diferente. Nas primeiras vezes, funciona muito bem e ajuda a criar tensão. Entretanto, Sarah Pearse utiliza o recurso tantas vezes que começamos a perceber o padrão e antecipar a próxima falsa pista.
Ainda assim, considero uma evolução.
Outros livros que podem te interessar:
- O Sanatório – Sarah Pearse
- Por Trás de Seus Olhos – Sarah Pinborough
- A Última Festa – Lucy Foley
- A Garota do Lago – Charlie Donlea
- A Última Coisa Que Ele Me Falou – Laura Dave
O maior problema está nos personagens
Por outro lado, existe uma característica que continua precisando de bastante trabalho: o desenvolvimento dos personagens.
Sinceramente, quase todos são tão pouco cativantes que fica difícil se importar com o destino deles. E isso representa um problema considerável em um thriller no qual as mortes deveriam causar algum impacto.
Não estou dizendo que uma morte precisa ser grotesca ou extremamente violenta para funcionar. Pelo contrário, considero muito mais interessante quando ela afeta emocionalmente o leitor porque conseguimos criar algum vínculo com aquele personagem. Em O Retiro, isso raramente acontece.
Nem mesmo Elin conseguiu me conquistar. A detetive carrega diversos traumas e conflitos internos, porém eles nunca me fizeram criar uma identificação verdadeira com ela. Em vários momentos, inclusive, achei a personagem simplesmente cansativa.
Além disso, existe um mistério relacionado ao passado de Elin que acompanha sua trajetória ao longo da série sem fazer parte diretamente dos crimes investigados. A ideia poderia funcionar como um bom incentivo para acompanhar os livros, mas neste volume recebemos apenas algumas pequenas pistas. No final, tive a impressão de que ela praticamente terminou no mesmo ponto em que começou.
Uma série que encontrou seu público
Uma curiosidade é que Sarah Pearse transformou Elin Warner em protagonista de uma trilogia. Depois de O Sanatório e O Retiro, a autora encerrou a trajetória da personagem em The Wilds, terceiro livro da série.
Isso mostra que, apesar das minhas ressalvas, a fórmula encontrou seu público. E não é difícil entender o motivo: Sarah Pearse escreve thrillers acessíveis, atmosféricos e extremamente fáceis de consumir.
No fim, O Retiro não é um livro ruim. Para quem ainda não possui uma bagagem muito extensa dentro do gênero, provavelmente será uma leitura divertida e envolvente. O problema é que, para quem já leu muitos thrillers semelhantes, existe pouco aqui que realmente se destaque.
É aquele tipo de história que cumpre muito bem seu papel de entretenimento, mas acaba se misturando facilmente a dezenas de outros livros do gênero. Ainda assim, depois da evolução em relação a O Sanatório, continuo acreditando que Sarah Pearse possui potencial para entregar algo melhor — só falta encontrar aquilo que faça seus thrillers deixarem de ser apenas mais um entre tantos.
Avaliação
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O Retiro
Sarah Pearse
ISBN: 978-65-556-0358-3
2023 – Intrínseca
400 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
Um retiro de bem-estar em uma ilha na costa da Inglaterra parece o lugar ideal para descansar. Só que a ilha em questão, conhecida como Pedra da Morte, tem um histórico sombrio. Outrora cenário dos terríveis crimes de um serial killer, é encarada por muitos como um local amaldiçoado. Isso, no entanto, não é o suficiente para afastar turistas, sempre fascinados pela aura misteriosa da ilha. É nesse contexto que chega uma leva mais recente de hóspedes, entre os quais duas irmãs e uma prima que parecem alimentar entre si ressentimentos do passado.
De repente, a paz naquele paraíso é interrompida quando uma mulher é encontrada morta na propriedade. À primeira vista, tudo indica se tratar de um acidente, mas a detetive Elin Warner não consegue deixar de sentir que há algo errado e que o ocorrido pode ser apenas a primeira peça de um enigma muito maior. Mas por que alguém cometeria um assassinato em um retiro luxuoso?
Quanto mais tempo Elin permanece ali, mais segredos descobre. E, quando outra pessoa morre em circunstâncias incomuns, a detetive começa a suspeitar que os boatos que rondam a ilha podem ser verdadeiros. Agora, ela precisa encontrar o assassino ― porque o passado do lugar parece estar se repetindo. Em um esforço para evitar uma tragédia ainda maior, Elin percebe que todos estão em perigo e que cada dia pode nascer trazendo trágicas notícias.