Resenha | O Guia do Mochileiro das Galáxias – Douglas Adams

Eu, como um bom nerd e programador que sou, deveria ter lido a série de livro do Guia do Mochileiro das Galáxias a muito tempo. Mas nunca é tarde e esse ano eu decidi finalmente fazer essa leitura e tentar entender o que faz dessa história ser um ícone no meio nerd.

Tudo começa com Arthur Dent, um humano que está lutando para que sua casa não seja demolida para a construção de um desvio para facilitar a locomoção das pessoas. O que ele não sabia, era que ao mesmo tempo, seu planeta passava pela mesma situação. Criaturas chamadas Vogons estavam prestes a destruir a Terra para liberar a passagem de uma via intergaláctica. Somente uma pessoa sabia dessa situação: Ford Prefect. Um excêntrico amigo de Arthur que fingia ser humano. Ele veio a Terra a muitos anos com o objetivo de criar um artigo sobre nosso planeta para o Guia do Mochileiro das Galáxias e acabou preso aqui. O Guia nada mais é do que uma grande enciclopédia eletrônica de tudo o que existe. Ele é escrito por mochileiros que viajam por todo o universo, levando sempre consigo sua toalha; elemento que se tornou referência no meio nerd.

Com a ajuda de Ford, Arthur consegue fugir do planeta pouco antes dele ser destruído. A partir daí, os dois começam a viver aventuras pelo universo que faria qualquer um questionar a própria sanidade. Nessa aventura eles conhecem outros personagens como Zaphod, Trillian e o depressivo robô, Marvin.

O livro tem um ritmo fora do comum. Particularmente, eu demorei um pouco para me adaptar. Tenha em mente que você vai ficar confuso. As situações são absurdas, a cronologia é distorcida; há muito conteúdo referente a planetas, civilizações e tecnologias fictícios. Todavia, tudo isso, unindo-se ao tom de ironia e comédia usado por Douglas Adams, faz parte da essência da obra.

Como programador, eu sou uma pessoa que busca muita lógica nas coisas. Eu só comecei a apreciar a leitura dessa série quando me desprendi dessa lógica, e passei a ler apenas seguindo o fluxo do tempo e espaço criado pelo autor. Depois disso, tudo foi mais divertido. É uma leitura que eu recomendo para todos os públicos.

Como comecei a ler

O pequeno Lucas gostava de ler. Tinha vários livrinhos infantis, em especial de contos de fadas. Adorava inventar suas próprias histórias inspirado pelo que lia. O Lucas de hoje não é muito diferente. Porém, entre o pequeno e o grande Lucas houve um período de trevas onde a leitura foi deixada de lado, a ponto dele mesmo se considerar alguém que não gosta de ler.

Tenho certeza que minha história não é diferente da história de muita gente.

Que a escola não consegue incentivar os alunos a lerem, todo mundo já sabe. Os livros propostos para os estudantes tem seu valor, mas infelizmente eles também são responsáveis por nos fazer achar que jamais vamos conseguir cultivar o hábito da leitura.

Durante o ensino fundamental ainda havia esperança. Eu tinha um trabalho bimestral que consistia em pegar um livro a meu gosto na biblioteca, ler e por fim responder um questionário de perguntas genéricas que supostamente provavam que eu realmente fiz a leitura. Eu tinha boas notas nesses trabalhos, mas lembro que poucos alunos eram os que de fato gostavam de fazer.

Depois disso, chegou o ensino médio, acompanhado de todos os problemas comuns na adolescência de qualquer pessoa. Foram anos perdidos sem nenhuma leitura. Confesso, li somente um livro para vestibular, Vidas Secas, mas ele não foi o suficiente pra me fazer querer ler mais. Eu cheguei a conclusão de que ler não era pra mim. Porém, o que eu não sabia, era que eu estava prestes a ser apresentado ao que acabaria se tornando minha autora favorita.

Num belo dia, pouco depois de eu terminar o ensino médio, Bruna, minha amiga, me falou sobre Agatha Christie e me convenceu a dar uma chance. Li O Caso dos Dez Negrinhos, hoje conhecido como E Não Sobrou Nenhum, e eu amei. A partir daí foi um frenesi de leitura, não parei de ler os livros dessa autora por uns três anos, até ter lido TODOS os mais de 80 livros que ela publicou.

Quando terminei, me senti um pouco perdido sobre o que ler em seguida. Mas uma vez que o prazer pela leitura já estava em mim, foi fácil dar oportunidades para outros autores e gêneros. Desde então, eu tenho lido muito mais e desenvolvido um gosto muito mais eclético. Ainda assim, continuo amando Agatha Christie e agradeço a ela e a minha amiga Bruna por terem me feito o leitor que sou hoje.

Resenha | Desventuras em Série – Lemony Snicket

Decidi ler Desventuras em Série ano passado com o lançamento da série da Netflix. Li os quatro primeiros volumes que correspondem a primeira temporada e deixei o resto para ler este ano para o lançamento da segunda, que vai até o nono volume. Mas a leitura estava tão boa que não aguentei e li até o fim.

A primeira coisa que eu ouço as pessoas falarem sobre Desventuras em Série é que ela é bem infantil, o que é esperado visto que se trata de um livro para esse público. Porém, eu não concordo que isso impede que adultos leiam e gostem. A simplicidade infantil pode ser algo muito agradável e engraçada de se ler.

A história é narrada pelo próprio autor, que se coloca como um personagem oculto na trama. Os protagonistas são os irmãos Baudelaire: Violet, a irmã mais velha com 14 anos, é uma inventora muito criativa. Klaus, o irmão do meio com 12 anos, é um menino que adora ler e usa seus conhecimentos para ajudar a resolver os problemas que eles encontram pelo caminho. E Sunny, a irmã mais nova, que ainda é apenas um bebê, mas mesmo não sabendo falar e andar, é muito esperta e conhecida por ter dentes fortes que se provam ser bem úteis.

Tudo começa com a primeira tragédia, a morte dos pais dos Baudelaire, que desencadeia uma série de outras tragédias ao longo dos 13 volumes. Agora órfãos, eles contam com a ajuda do Sr. Poe, um bancário, responsável por administrar a fortuna que as crianças vão receber assim que Violet tiver idade suficiente, e que também precisa encontrar um novo lar para eles viverem.

O problema é que o Sr. Poe, mesmo demonstrando verdadeira preocupação pelas crianças, se mostra ser totalmente incompetente, dando a guarda delas para pessoas inadequadas. O primeiro tutor dos Baudelaire acaba sendo o Conde Olaf, o grande vilão da história, que inescrupulosamente vai fazer de tudo para ficar com a fortuna dos órfãos.

Isso nos leva a segunda crítica que eu ouço falar, que é a série ser muito repetitiva, sempre com o Conde Olaf executando planos malignos através de seus disfarces horríveis (porém, de alguma forma, eficientes), sempre com as crianças numa situação ruim, sem poder contar com a ajuda dos adultos, sempre tudo dando errado pra ambos os lados, sempre tudo terminando em mais tragédia. De fato existem essas repetições, e que é muito frustrante quando você torce para as coisas darem certo e perceber que elas nunca vão dar, mas é isso que a história é: Desventuras em Série. E o autor faz questão de alertar em cada livro, que se você não está preparado pra lidar com isso, pare de ler agora e vá ler um livro que te deixe feliz.

Gostaria de fazer um destaque ao grande trabalho que o autor faz evoluindo os personagens ao longo do tempo, em especial Sunny, que começa como um bebê que não consegue falar e andar, e termina não apenas falando e andando, mas com habilidades culinárias impressionantes. E é incrível ir percebendo essas evoluções. Inclusive, a Sunny é minha personagem favorita, responsável por me fazer rir diversas vezes durante as leituras.

Durante a história existe um grande mistério que envolve todos os personagens, incluindo o narrador, e que ao longo dos volumes esses segredos vão sendo revelados. Algumas pessoas consideram o final da série muito aberto e inconclusivo, eu particularmente não gosto de finais assim também, mas neste caso eu admito que encaixou muito bem e posso afirmar que gostei, porque o que não foi dito, ficou subentendido.

Recomendo muito pra quem quer ler algo mais leve e divertido. É perfeito pra ler intercalando com leituras mais pesadas, além de serem livros curtos e rápidos de ler. Porém, já aviso que existe a chance de você deixar tudo de lado pra focar em ler Desventuras em Série porque é viciante.

Resenha | O Nome da Rosa – Umberto Eco

Um belo dia, fui convidado a ler este livro com mais duas pessoas. Admito que pensei que não gostaria dele por causa da escrita. Me enganei, O Nome da Rosa é sim uma leitura pesada, não pela escrita, mas por toda a filosofia e contextualização da época.

O que me motivou a ler foi o fato da obra se tratar de uma ficção policial, passada numa época atípica ao gênero, mas que contém todos os elementos de quem aprecia uma boa história investigativa.

A história é narrada por Adso, um garoto que vive aos cuidados de seu mestre, Guilherme de Baskerville. Tudo começa com ambos chegando em um mosteiro que daqui uns dias receberá representantes importantes da igreja para resolver uma questão que o autor vai aos poucos contextualizando. Porém, ao chegar lá, eles se deparam com um crime, um mistério que precisará ser resolvido da melhor forma antes do dia da reunião. E quando eu digo “melhor forma”, eu quero dizer “sem comprometer a dignidade da abadia e de seus monges”. Guilherme era famoso por ter resolvido alguns mistérios no passado e foi imediatamente convidado a ajudar a solucionar mais esse. Ele aceita, mas comeca a perceber que o mosteiro esconde mais mistérios do que seus monges querem que sejam esclarecidos.

Algo que me confundia com frequência era identificar quem era quem, são muitos personagens e eu particularmente tenho problemas com lembrar nomes. Sobre o crime, suas motivações, causas e consequências eu não tenho do que reclamar, foi incrível. O que realmente dificulta a leitura é a contextualização da época para justificar a reunião que acontecerá no mosteiro e toda a filosofia envolvida. Sei que é isso que torna o livro uma grande obra, sei que se aprende muitas coisas com as reflexões, sei que não absorvi nem 1/3 de tudo isso, mas o que me prendeu no livro foi o mistério, porque é o que eu gosto e achei incrível o local inusitado em que se passou.

Gostei muito do final, tanto pelo que aconteceu no mosteiro quanto pela descoberta do culpado. É importante prestar atenção nas conversas filosóficas durante o livro para entender as motivações dele. Pra quem se interessar, a obra já foi adaptada para o cinema e eu recomendo tanto ler quanto assistir.

Resenha | Elantris – Brandon Sanderson

Depois de muito ter ouvido falar em como Brandon Sanderson tem sido um grande autor atualmente, resolvi dar uma oportunidade e comecei por Elantris, sua primeira publicação em 2005 (2012 no Brasil). Como sempre, li sem criar expectativas e me surpreendi com como a história foi envolvente.

O livro fala sobre a capital de Arelon, Elantris, uma cidade que outrora fora habitada por imortais que através de sua escrita sagrada chamada de Aons, dispunham de poderes dos mais diversos tipos, desde cura até transformação de pedras em alimentos. Mas tudo isso mudou. Sem explicação, os cidadãos Elantrinos perderam seus poderes e começaram a adoecer. Essa doença, que a princípio corrompia o corpo e a mente da pessoa, foi chamada de Shaod e atingia não só eles, mas também pessoas comuns que vivem até hoje em Arelon, os tornando Elantrinos: imortais, porém corrompidos. E assim, a belíssima cidade de Elantris entrou em decadência e hoje serve como uma espécie de prisão para todos os que são atingidos pelo Shaod.

Ela é narrada por três pontos de vistas, intercalando entre os capítulos. Porém, é sempre uma linha do tempo contínua, não é contada a mesma cena pelos pontos de vistas diferentes nos momentos em que eles se encontram. O primeiro é Raoden, príncipe de Arelon, que já no início acorda e percebe que foi atingido pelo Shaod e é condenado secretamente a viver a eternidade em Elantris, secretamente pois o rei não queria que o povo soubesse que a família real fora atingida pelo Shaod e anunciou que seu filho estava morto. A segunda é Sarene, uma princesa de outro reino, futura esposa de Raoden, que estava prestes a chegar em Arelon para conhecer o príncipe e descobre que já estava viúva antes mesmo de se casar. O terceiro é Hrathen, um representante da religião Shu Dereth que vai para Arelon com a missão de implantar sua doutrina.

Há inúmeros conflitos de interesses acontecendo na história, Raoden, seguindo seus instintos de liderança, quer tentar reerguer Elantris e a tornar o mínimo dignamente habitável para seus condenados. Sarene, que decidiu por vontade própria se casar com o príncipe de Arelon em busca de unir as nações contra Fjorden e a dominação religiosa que eles vem impondo, percebe que está sozinha, longe de casa e que depende apenas dos seus esforços para convencer os cidadãos de Arelon de que eles estão ameaçados e precisam de uma liderança mais forte. E Hrathen, que começa sutilmente seu plano de converter a população de Arelon. Os três são personagens profundos que tratam de assuntos como o que é ser um bom líder, a força da mulher e o questionamento da fé.

Em determinado momento do livro, os interesses de cada personagem começam a causar conflitos entre si e é neste momento que o autor mostra sua incrível capacidade para elaborar estratégias, intrigas políticas e muitas reviravoltas chocantes. Eu não li as Crônicas de Gelo e Fogo, mas suspeito que Elantris é um prato cheio para quem gosta desse tipo de história.

A construção dos personagens, tanto protagonistas, quanto secundários é muito boa, mas o que impressiona mesmo é todo o contexto histórico e religioso que o autor criou para que tudo faça sentido de ser como é e guardando até o fim o mistério do que aconteceu com Elantris no passado.

Concluindo, este é um livro incrível que recomendo e que com certeza abriu portas para eu ler outras obras do Brandon Sanderson. Aviso que no início as coisas podem ser um pouco confusas, devido a tantos nomes e conceitos expostos, mas que com calma tudo vai se encaixando. No final, a história se fecha, mas o universo fica aberto para uma possível continuação que com certeza eu gostaria de ler.

Para quem tem interesse, no site do autor existem duas histórias curtas que falam um pouco mais sobre o que houve depois. Está disponível somente em inglês, mas vale a pena conferir.