Olá, Sonhadores! Seguindo o meu plano de continuar lendo a Coleção Vagalume, hoje trago a resenha de Éramos Seis, de Maria José Dupré, um dos livros mais emblemáticos dessa coleção e também uma obra que prometia ser uma super leitura nacional. Embora eu já conhecesse o título por sua fama e pelas adaptações para a televisão, confesso que não sabia exatamente sobre o que era a história.
Pelo título e pela capa, imaginei que encontraria uma narrativa centrada em conflitos familiares. E, sendo bem sincero, esse tipo de tema às vezes me dá um pouco de preguiça. Afinal, a vida real já está cheia de problemas familiares, cobranças, dificuldades financeiras, desentendimentos e preocupações. Por isso, ler sobre os problemas dos outros pode parecer algo cansativo. No entanto, para minha surpresa, não foi essa a sensação que tive com Éramos Seis.
A história de uma família marcada pelo tempo
A trama acompanha Dona Lola, uma mulher dedicada à família, casada com Júlio e mãe de quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. A partir de suas lembranças, conhecemos a trajetória da família Lemos ao longo dos anos, especialmente em São Paulo, em um período de muitas mudanças sociais, econômicas e históricas.
O livro mostra as dificuldades de manter uma casa, criar os filhos, lidar com as frustrações do casamento, enfrentar perdas, mudanças de comportamento e decisões que nem sempre são fáceis de compreender. Além disso, a narrativa também revela como o tempo transforma as pessoas e como uma família, mesmo unida por laços fortes, pode seguir caminhos muito diferentes.
Apesar de parecer uma história simples, Éramos Seis ganha força justamente por causa dessa simplicidade. Não há a necessidade de grandes reviravoltas para prender o leitor. O que envolve é acompanhar aquela família de perto, como se estivéssemos observando vizinhos, parentes ou até mesmo partes da nossa própria vida.
Outros livros que podem te interessar:
- A Ilha Perdida – Maria José Dupré
- Cabra das Rocas – Homero Homem
- Um Defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves
- A Casa das Sete Mulheres – Letícia Wierzchowski
- O Cortiço – Aluísio Azevedo
Uma família cheia de conflitos, mas profundamente humana
Um dos aspectos que mais me surpreendeu foi o quanto eu me envolvi com os problemas dessa família. Por um lado, é impossível não se identificar com certas situações. Por outro, a leitura também nos faz lembrar que existem pessoas enfrentando dores, perdas e dificuldades muito maiores do que as nossas. Isso não chega a ser exatamente um consolo, mas provoca uma reflexão importante.
Além disso, os personagens são muito bem construídos. Não existe alguém totalmente certo ou totalmente errado, bom ou ruim. Todos carregam contradições, defeitos, qualidades e escolhas difíceis. Essa dualidade é um dos grandes acertos da obra, porque torna tudo mais verossímil.
Em alguns momentos, temos raiva de Júlio, de Isabel ou de Alfredo. Porém, depois, a autora revela outras camadas desses personagens e consegue despertar empatia por eles. Mesmo quando discordamos de suas atitudes, entendemos que há dores, limitações, desejos e contextos por trás de cada comportamento.
E, é claro, é impossível não se apegar à Dona Lola. Ela representa uma imagem clássica e idealizada de mãe: alguém que se sacrifica, sofre em silêncio, tenta manter todos unidos e carrega nas costas o peso emocional da família. Durante a leitura, senti uma angústia enorme por tudo o que ela enfrenta, quase como se desse vontade de entrar na história e ajudá-la de alguma forma.
Personagens secundários que também deixam marca
Outro ponto muito positivo é que até os personagens fora do núcleo familiar principal são marcantes. Eles não estão ali apenas para preencher espaço. Cada um contribui para ampliar o universo da narrativa e mostrar diferentes formas de viver, pensar e enfrentar as dificuldades da época.
Isso faz com que o livro tenha uma sensação de realidade muito forte. A autora consegue construir um retrato de época convincente, com pessoas que pensam e agem de acordo com o contexto em que vivem. Portanto, mesmo quando algumas atitudes parecem duras ou antiquadas, elas fazem sentido dentro daquele período.

Uma escrita mais fluida do que eu esperava
Antes de começar a leitura, imaginei que talvez fosse demorar para terminar o livro por causa da linguagem. Afinal, trata-se de uma obra mais antiga, publicada originalmente em 1943. No entanto, aconteceu o contrário. A leitura fluiu muito bem.
Maria José Dupré tem uma escrita simples, direta e envolvente. A narrativa prende a atenção sem parecer pesada, mesmo tratando de temas difíceis. Além disso, o ritmo é muito bom, principalmente porque a autora sabe conduzir os acontecimentos de forma natural, como se estivéssemos acompanhando memórias reais.
Não é à toa que Éramos Seis tem tanto reconhecimento. É uma história muito bem contada, com emoção, profundidade e personagens que permanecem com o leitor depois da última página.
Uma curiosidade sobre a obra
Uma curiosidade interessante é que Éramos Seis não ficou marcado apenas na literatura. O romance foi publicado em 1943 e, em 1944, recebeu o Prêmio Raul Pompeia, da Academia Brasileira de Letras. Além disso, a obra teve várias adaptações para a televisão, incluindo versões em 1958, 1967, 1977, 1994 e 2019, o que ajuda a explicar por que essa história continuou tão presente no imaginário do público brasileiro.
Uma leitura simples, profunda e inesquecível
Eu tenho que confessar que Éramos Seis me surpreendeu muito positivamente. Não esperava terminar a leitura com essa sensação de ter gostado tanto. É um livro simples, bem escrito, mas também muito profundo e marcante.
No fim, a obra vai muito além de uma história sobre conflitos familiares. Ela fala sobre tempo, escolhas, sacrifícios, maternidade, frustrações, amor e memória. Por isso, é uma leitura que fica na cabeça e no coração.
Para quem gosta de clássicos nacionais, histórias familiares e livros que parecem simples, mas escondem uma grande carga emocional, Éramos Seis é uma recomendação certeira. Com certeza é uma daquelas leituras que permanecem na memória e que a gente sempre sente vontade de indicar.
Avaliação
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Éramos Seis
Maria José Dupré
1973 – Ática
252 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
A história de Dona Lola e sua família, uma bondosa e batalhadora mulher que faz de tudo pela felicidade do marido, Júlio, e dos quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Maria Isabel. A vida de Dona Lola é narrada desde a infância das crianças, quando Júlio trabalha para pagar as prestações da casa onde moram, passando pela chegada dos filhos à fase adulta e de Dona Lola à velhice.
Conforme os anos passam, vão se modificando as coisas na vida de Dona Lola: a morte de Júlio; o sumiço de Alfredo pelo mundo; a união de Isabel com Felício, um homem separado; a ascensão de Julinho, que se casa com uma moça de família rica. O título do livro vem da situação de Dona Lola ao fim da vida, sozinha num asilo: eram seis, agora só resta ela. Também são expostos no livro outras personagens, como os familiares de Lola: na cidade de Itapetininga, interior paulista, moram a mãe, Dona Maria; a tia Candoca; as irmãs Clotilde, solteira, e Olga, casada com Zeca, seu cunhado; na cidade, vive a rica tia Emília, irmã de seu pai; e a filha dela, Justina.