Olá, Sonhadores! Depois de conhecer R.F. Kuang através de A Guerra da Papoula, passei a tentar acompanhar cada novo lançamento da autora. Desde então, ela se tornou uma daquelas escritoras que sempre despertam minha curiosidade, principalmente porque costuma trazer ideias criativas, originais e, muitas vezes, bastante ousadas para suas histórias.
Por isso, quando vi a proposta de Katábasis, fiquei curiosíssimo. A premissa de uma fantasia dark academia envolvendo magia, rivalidade acadêmica e uma descida ao Inferno parecia ter tudo para ser uma experiência marcante. Além disso, depois de livros como Babel e Yellowface, era interessante ver Kuang retornando a uma fantasia mais assumida, mas ainda carregada de reflexões sobre conhecimento, ambição e ambiente acadêmico.
Agora, depois de concluir a leitura, venho compartilhar minha experiência com um livro que, infelizmente, não atingiu tudo o que eu esperava.
Uma jornada pelo Inferno acadêmico
Em Katábasis, acompanhamos Alice Law, uma estudante de doutorado em magia na Universidade de Cambridge. Ela dedicou praticamente tudo de si para se tornar uma grande acadêmica e para trabalhar ao lado do prestigiado professor Jacob Grimes. No entanto, quando seu orientador morre em um acidente mágico, Alice se vê em uma situação extrema.
Para salvar o futuro de sua carreira, ela precisa descer ao Inferno em busca da alma do professor. Porém, ela não está sozinha nessa missão. Peter Murdoch, seu rival acadêmico, também embarca nessa jornada, criando uma dinâmica de tensão, competição e alianças instáveis.
A partir daí, o livro mistura fantasia, dark academia, referências filosóficas e uma releitura da ideia clássica da katábasis, termo de origem grega associado à descida ao submundo. A própria editora apresenta a obra como uma combinação entre Inferno, de Dante, e Piranesi, de Susanna Clarke, com dois estudantes rivais tentando resgatar a alma de seu professor no Inferno.
Sem entrar em spoilers, a trama tenta usar essa jornada não apenas como aventura fantástica, mas também como uma forma de discutir ambição, dependência acadêmica, rivalidade intelectual e o quanto algumas pessoas estão dispostas a sacrificar por reconhecimento.
Outros livros que podem te interessar:
- Babel – R.F. Kuang
- A Guerra da Papoula – R.F. Kuang
- A República do Dragão – R.F. Kuang
- A Deusa em Chamas – R.F. Kuang
- Impostora – R.F. Kuang
Uma ideia excelente, mas com personagens difíceis de acreditar
A proposta do livro é, sem dúvida, muito interessante. Não tem como ler a sinopse e não ficar curioso. Existe uma criatividade clara no conceito, e a ideia de transformar o Inferno em um espaço atravessado por disputas intelectuais, regras mágicas e dilemas acadêmicos é bastante promissora.
Entretanto, na prática, tive muitos problemas com a execução. O primeiro deles está nos personagens principais. Alice, Peter e até mesmo o orientador parecem inconsistentes e, em alguns momentos, inverossímeis. A impressão que tive é que a autora quis criar uma dualidade neles, talvez para aumentar o mistério e deixar tudo mais ambíguo. Porém, para mim, isso mais prejudicou do que ajudou.
Em vez de personagens complexos, muitas vezes encontrei personagens que mudavam de atitude ou de intensidade emocional de uma forma pouco convincente. Com isso, ficou difícil comprar completamente os conflitos entre eles ou me envolver com a profundidade que a história parecia exigir.
Motivações frágeis em uma jornada grandiosa
Outro problema, e acredito que o maior, está na motivação dos personagens. A aventura começa muito rápido, e a autora se esforça para fazer o leitor acreditar que tudo aquilo é urgente, importante e emocionalmente decisivo. No entanto, ao longo da leitura, essa motivação vai se desmontando.
Chega um ponto em que a situação inteira começa a parecer frágil demais para sustentar uma jornada tão extrema. Além disso, mais perto do final, a autora introduz uma nova motivação para tentar conduzir a trama até sua conclusão. Porém, achei essa escolha forçada, desnecessária e até clichê. Para mim, não funcionou.
Consequentemente, mesmo com uma premissa forte, a história perdeu impacto. O livro parecia querer me convencer de que havia algo grandioso em jogo, mas a construção emocional não acompanhou essa ambição.
Um Inferno que poderia ser mais memorável
A construção do Inferno também me decepcionou. Entendo o que R.F. Kuang queria fazer, principalmente ao misturar referências literárias, filosóficas e acadêmicas. Ainda assim, achei a construção de mundo fraca quando comparada a outros autores de fantasia que trabalham cenários fantásticos com mais força, atmosfera e relevância narrativa. Em alguns momentos, o lugar onde os personagens estavam parecia deixar de importar. As diferentes áreas do Inferno não conseguiram, para mim, se transformar em espaços realmente marcantes ou indispensáveis para a trama.
Esse era um ponto que poderia ter sido muito melhor aproveitado, principalmente porque a ideia central dependia bastante da força desse universo.

A escrita continua sendo o grande ponto forte
Apesar das minhas críticas à trama, a escrita de R.F. Kuang continua impecável. O texto é dinâmico, fluido e muito tranquilo de acompanhar. Mesmo quando a história não me convencia, a leitura seguia avançando com facilidade.
Por outro lado, entendo as reclamações sobre as explicações teóricas frequentes ao longo do livro. Realmente, há momentos em que a autora pesa a mão nas discussões acadêmicas e filosóficas. No meu caso, isso não chegou a incomodar tanto, mas reconheço que pode quebrar o ritmo para muitos leitores.
Vem aí uma adaptação?
Uma curiosidade interessante é que Katábasis já teve seus direitos de adaptação vendidos para a Amazon MGM Studios antes mesmo do lançamento do livro. Segundo informações divulgadas, Angela Kang, conhecida por seu trabalho em The Walking Dead, foi anunciada como roteirista e showrunner da adaptação para série.
Além disso, o livro foi publicado originalmente em 26 de agosto de 2025 pela Harper Voyager, reforçando o tamanho da expectativa em torno do retorno de Kuang à fantasia.
Vale a pena ler Katábasis?
Katábasis é um livro legal, mas infelizmente não entregou a qualidade que eu esperava na trama. O grande ponto alto está na originalidade e na ousadia da proposta, porque tenho certeza de que não foi um livro fácil de escrever. Ainda assim, para mim, ficou o gosto de uma boa ideia mal aproveitada.
Portanto, recomendo com ressalvas. Quem gosta muito de R.F. Kuang, de dark academia e de fantasias mais intelectuais provavelmente encontrará elementos interessantes. Porém, quem espera uma jornada emocionalmente forte, personagens convincentes e uma construção de mundo marcante talvez termine a leitura com a mesma sensação de decepção que eu tive.
Avaliação
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Katábasis
R.F. Kuang
ISBN: 978-85-510-1223-9
2025 – Intrínseca
480 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
Alice Law tem apenas um objetivo: se tornar uma das mentes mais brilhantes da área de magia analítica. Ela sacrificou tudo: orgulho, vida amorosa e até mesmo a sanidade. Abriu mão do que foi preciso para entrar no programa de pós-graduação de Cambridge e trabalhar ao lado do professor Jacob Grimes, o maior mago do mundo.
Mas Grimes não é uma figura fácil. Rígido e exigente, é capaz de ultrapassar qualquer limite. E em um universo onde cometer o menor erro pode ser física e moralmente fatal, Alice se vê sem rumo quando o professor morre em um experimento mágico simples. E a culpa talvez seja dela.
O renomado professor vai parar no Inferno ― um lugar inclemente, árido e sombrio, composto por tribunais que expõem os pecados e as vicissitudes humanas. E não resta alternativa a não ser buscá-lo. Afinal, o futuro dela agora está nas mãos de um ser espectral. Mas Alice não vai embarcar nessa jornada sozinha: para seu azar, Peter Murdoch, seu principal rival ao estrelato acadêmico, teve a mesma ideia.
Com apenas um punhado de giz para traçar pentagramas mágicos e os registros de Dante e Orfeu para guiá-los através do Inferno, Alice e Peter vão se embrenhar pelo submundo para salvar um homem de quem nem sequer gostam. O Inferno, no entanto, não parece ser como a literatura e a filosofia descrevem. E a magia nem sempre é a solução. Há algo que une Alice e Peter e pode transformá-los nos aliados perfeitos… ou então levá-los de vez à destruição.