Por P.S. Allen
Olá, Sonhadores! Mentiras Que Contamos, de Philippe Besson, é uma leitura que chama atenção logo de início, especialmente para quem busca histórias dentro da literatura LGBT com uma abordagem mais sensível e introspectiva. A obra surge como uma recomendação que desperta curiosidade e entrega uma narrativa que vai além de um romance convencional.
Um amor do passado que ressurge no presente
A história acompanha Philippe, um escritor já consagrado, que revisita um episódio marcante de sua adolescência. Filho de um professor, ele cresceu em um ambiente onde sua sexualidade não era assumida, carregando consigo sentimentos contidos e silenciosos.
Durante esse período, Philippe desenvolve uma forte atração por Thomás, um colega tímido, reservado e de personalidade difícil de decifrar. Esse relacionamento, no entanto, não segue caminhos simples ou idealizados. Anos mais tarde, já adulto, o protagonista se depara com um adolescente que se parece muito com Thomás durante uma entrevista sobre seu novo livro. Esse encontro funciona como gatilho para o retorno ao passado, conduzindo o leitor à reconstrução desse romance.
Um retrato honesto, sem idealizações
Um dos aspectos mais interessantes do livro é a forma como o autor constrói a narrativa sem recorrer a clichês comuns em histórias do gênero. Mentiras Que Contamos não se apresenta como um romance de superação tradicional, e isso faz diferença na experiência de leitura.
Ambientado na década de 1980, o livro incorpora elementos importantes do contexto histórico, como o impacto da epidemia de AIDS e o cenário político da Guerra Fria. Acima de tudo, esses fatores influenciam diretamente a forma como os personagens se percebem e se comportam.
A construção dos protagonistas reflete esse momento histórico de maneira coerente. Não há uma abordagem militante ou anacrônica; pelo contrário, as atitudes e conflitos internos dos personagens são apresentados de forma compatível com a época. De tal forma que isso contribui para uma narrativa mais verossímil e alinhada com a realidade daquele período.
Outros livros que podem te interessar:
- Uma Vida Pequena – Hanya Yanagihara
- Três – Valérie Perrin
- Os Prós e Contras de Nunca Esquecer – Val Emmich
- Minha Metade Silenciosa – Andrew Smith
- Tom Lake – Ann Patchett
Escrita fluida e emocionalmente consistente
Apesar de ter um tom mais introspectivo, a escrita de Philippe Besson se destaca pela fluidez. O texto não se torna pesado ou cansativo, mesmo ao explorar emoções profundas e complexas.
O autor consegue transmitir com precisão os sentimentos dos personagens, criando uma conexão genuína com o leitor. As emoções são apresentadas de forma natural, sem exageros, o que reforça a credibilidade da narrativa.
Essa combinação entre introspecção e leveza na escrita torna a leitura envolvente, mantendo o interesse ao longo da história.
A importância do contexto na interpretação
Um ponto essencial para aproveitar melhor o livro é compreender o contexto em que a história se passa. As atitudes e decisões dos personagens, especialmente de Thomás, podem causar estranhamento quando analisadas sob uma perspectiva atual.
Sem considerar o cenário social e histórico da época, há o risco de interpretar essas ações de forma equivocada, o que pode gerar rejeição ao personagem. No entanto, ao levar em conta as limitações e pressões daquele período, suas atitudes ganham outro significado.
Essa necessidade de contextualização reforça a profundidade da obra, que não oferece respostas simples, mas convida o leitor a refletir sobre as circunstâncias que moldam as escolhas individuais.
Vale a pena ler Mentiras Que Contamos?
De forma geral, Mentiras Que Contamos é uma leitura recomendada para quem aprecia romances LGBT com maior profundidade emocional e narrativa mais reflexiva. A obra se aproxima de títulos como Me Chame Pelo Seu Nome, especialmente por explorar relações de forma mais sensível e menos idealizada.
Ao fugir de estruturas previsíveis e ao incorporar o peso do contexto histórico, o livro oferece uma experiência diferente do que muitos leitores podem esperar do gênero. É uma história que exige atenção e compreensão, mas que recompensa com uma abordagem honesta e bem construída.
Para quem busca uma leitura que vá além do romance superficial e que dialogue com questões mais amplas, essa é uma obra que certamente merece atenção.
Avaliação
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Mentiras Que Contamos
Philippe Besson
ISBN: 978-65-556-6548-2
2024 – Astral Cultural
192 páginas
Português (Brasil)
Sinopse
Do saguão de um hotel no interior da França, Philippe se depara com um jovem que se assemelha muito ao seu primeiro amor. O inesperado encontro o leva de volta ao ano de 1984, quando viveu um romance escondido com o jovem e deslumbrante Thomas, durante o último ano do Ensino Médio. Sem nunca admitir nos corredores que se conhecem, eles se encontram em segredo, entregando-se a um caso apaixonante e que ambos sabem estar fadado ao fim assim que as aulas acabarem. Mentiras que contamos captura o erotismo e a ternura de um primeiro amor – e quão dolorosa é a passagem do tempo quando não somos verdadeiros à nossa essência.