Tehanu - Ursula K. Le Guin

Resenha do Livro Tehanu, de Ursula K. Le Guin

Olá, Sonhadores! Fiquei muito animado quando soube do lançamento de Tehanu, de Ursula K. Le Guin, no Brasil. Tenho acompanhado o Ciclo Terramar nos últimos tempos e estava bastante ansioso para continuar essa jornada. Entretanto, desta vez encontramos uma história consideravelmente diferente das anteriores. Em vez de acompanhar grandes feitos de magos, reis ou heróis, retornamos à vida de Tenar, a jovem que conhecemos em As Tumbas de Atuan, agora uma mulher madura que viveu, formou uma família e ainda carrega consigo questões que nunca resolveu completamente.

O reencontro com Tenar e Ged

Depois dos acontecimentos de As Tumbas de Atuan, Ged deixou Tenar aos cuidados de seu antigo mestre, Ogion. Porém, ela escolheu um caminho diferente daquele que muitos poderiam esperar. Em vez de seguir uma vida ligada à magia, Tenar decidiu experimentar uma existência comum. Ela se casou com um fazendeiro, teve dois filhos e construiu sua própria família.

Anos depois, contudo, sua realidade mudou. O marido morreu e os filhos deixaram a casa para seguir suas próprias vidas. É nesse momento que Tenar conhece Therru, uma criança que sofreu uma violência terrível nas mãos da própria família. Queimada e abandonada, a menina ficou com sequelas físicas e emocionais que dificultam sua convivência com outras pessoas. Diante disso, Tenar decide acolhê-la e passa a cuidar dela como uma filha.

Enquanto as duas constroem essa relação, chegam notícias sobre os acontecimentos do volume anterior da série. Terramar finalmente possui um novo rei, mas Ged desapareceu. Pouco depois, ele surge diante de Tenar completamente transformado: após perder seus poderes, o antigo Arquimago precisa descobrir quem é quando a magia, que durante tantos anos definiu sua identidade, deixa de fazer parte de sua vida.

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Uma fantasia sobre aquilo que acontece depois da aventura

O Ciclo Terramar nunca foi uma fantasia convencional. Ainda assim, acredito que Tehanu leva essa característica a outro nível.

Em muitos livros do gênero, acompanhamos personagens destinados a grandes feitos. Eles precisam salvar reinos, derrotar inimigos, dominar poderes ou cumprir profecias. Entretanto, Ursula K. Le Guin faz algo muito mais interessante aqui: pergunta o que acontece com essas pessoas quando as grandes aventuras terminam.

Ged já foi um dos homens mais poderosos de Terramar. Agora, precisa aprender a existir sem aquilo que definia sua posição no mundo. Tenar, por outro lado, poderia ter seguido um caminho extraordinário depois de fugir das Tumbas de Atuan, mas escolheu construir uma vida considerada comum.

E justamente essa vida comum se torna extraordinariamente interessante.

Tenar e as diferentes experiências de ser mulher

Para mim, o ponto mais fascinante do livro está na maneira como Le Guin constrói uma história essencialmente sobre mulheres.

Tenar aparece como mãe, companheira, amiga, trabalhadora e cuidadora, mas nenhuma dessas características consegue defini-la completamente. Ela também precisa refletir sobre suas próprias escolhas, sobre o caminho que abandonou e sobre o lugar reservado às mulheres dentro daquele universo.

Além disso, sua relação com Therru acrescenta outra camada muito importante à narrativa. A menina passou por experiências extremamente cruéis e precisa aprender a viver em um mundo que frequentemente reage com rejeição diante de sua aparência e de seus traumas.

Por isso, embora ainda estejamos em um mundo de magia, dragões e grandes poderes, os conflitos mais importantes de Tehanu são profundamente humanos.

Tehanu - Ursula K. Le Guin

Quando a originalidade está no enredo

Esse foi justamente um dos aspectos que mais gostei durante a leitura. Frequentemente, quando pensamos em originalidade dentro da fantasia, procuramos sistemas de magia diferentes, criaturas inéditas ou mundos cada vez mais complexos. Entretanto, Ursula K. Le Guin mostra que também podemos encontrar originalidade naquilo que escolhemos contar.

A jornada do grande herói já apareceu inúmeras vezes no gênero. Além disso, até algumas tentativas mais recentes de desconstruir esse modelo acabaram criando suas próprias fórmulas, inclusive determinadas representações de heroínas construídas sempre pelos mesmos caminhos.

Tehanu segue em outra direção.

A autora trabalha maternidade, envelhecimento, identidade, violência, poder, relações entre homens e mulheres e até a dificuldade de reconstruir a própria vida. São assuntos que talvez muitas pessoas esperassem encontrar com maior frequência na chamada literatura contemporânea ou em romances mais intimistas, mas que funcionam perfeitamente dentro de uma obra de fantasia.

A escrita de Ursula K. Le Guin continua surpreendendo

Le Guin também mantém uma característica que considero fundamental em Terramar: sua escrita nunca depende de acontecimentos grandiosos para transmitir importância.

Existe uma simplicidade aparente na narrativa, mas sempre acompanhada de muitas ideias por trás das conversas, das relações e até dos momentos cotidianos. Consequentemente, Tehanu pode parecer uma história menor em escala quando comparada aos volumes anteriores, mas é justamente essa proximidade com seus personagens que lhe dá força.

Uma curiosidade interessante é que Le Guin publicou Tehanu muitos anos depois da trilogia original de Terramar. Essa distância permitiu que a autora revisitasse aquele universo por outra perspectiva, inclusive questionando algumas das estruturas de poder e dos papéis de gênero apresentados anteriormente.

Vale a pena ler Tehanu?

Tehanu provavelmente não é aquilo que alguém espera encontrar ao imaginar uma continuação tradicional de uma série de fantasia. Para mim, essa é justamente uma de suas maiores qualidades.

Ursula K. Le Guin prova que um universo fantástico não precisa existir apenas para contar histórias sobre guerras, grandes magos ou aventuras épicas. Ele também pode servir para discutir identidade, família, amadurecimento, violência e todas as complexidades que existem nas relações humanas.

Por isso, recomendo muito não apenas Tehanu, mas todo o Ciclo Terramar. Cada volume consegue apresentar novas perspectivas sobre esse mundo e, depois desta leitura, fiquei ainda mais curioso para descobrir o que a autora reservou para os próximos livros.

E vocês, já conheciam Tehanu? Gostam quando uma série de fantasia abandona um pouco as grandes aventuras para explorar conflitos mais íntimos de seus personagens?


Avaliação

Avaliação: 4 de 5.

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Skoob – Goodreads


Tehanu - Ursula K. Le Guin

Tehanu

Ursula K. Le Guin

ISBN: 978-65-609-9001-2

2024 – Morro Branco

240 páginas

Português (Brasil)

Sinopse

Um erro que não pode ser reparado deve ser transcendido…
Anos se passaram desde que Tenar e Ged escaparam juntos das Tumbas de Atuan. Agora, a Sacerdotisa é uma viúva conhecida como Goha e leva uma vida comum no campo, enquanto o feiticeiro e Senhor dos Dragões vive em depressão após perder todos os seus poderes.
Tudo muda quando Goha adota uma garotinha queimada viva e abandonada para morrer. A viúva dá à criança o nome de Therru, e juntas elas viajam por Gont em diferentes e desafiadoras empreitadas.
Enquanto ajuda Ged a recuperar a saúde, Tenar também deverá concentrar suas forças para atravessar uma jornada pessoal sem deixar de lado Therru, cujo destino ainda será revelado.

Aclamada como uma das melhores séries de fantasia de todos os tempos e ganhadora dos principais prêmios, como Locus e Hugo, a obra de Ursula K. Le Guin, que se tornou referência e inspiração para a literatura fantástica mundial, chega agora em versão definitiva com ilustrações do inigualável Charles Vess.

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